PUC-Rio

Jornal/Revista: Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 09/06/1993
Autor/Repórter: Armando Antenore

AUDIÊNCIA ACIRRA GUERRA ENTRE SBT E IBOPE

Uma semana depois de abrir fogo contra o "SP Já" e o "Jornal Nacional", o SBT enfrenta outra batalha. O alvo, agora, é o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estadística (Ibope), que mede a audiência das TVs.

A guerra começou há aproximadamente 40 dias. Mas se radicalizou sexta-feira à noite, quando o Ibope deixou de divulgar os índices de audiência na Grande São Paulo. Era uma represália ao SBT — que nunca disfarçou a desconfiança com as pesquisas do instituto. A cúpula do SBT considera que o Ibope comete erros, principalmente por razoes técnicas, e que os erros quase sempre beneficiam a Globo.

A Folha tentou ouvir a Globo sobre o assunto. Entre 17h30 e 18h30 de ontem, procurou por telefone o superintendente comercial da emissora, Otávio Florisbal, que não pôde atender.

Até meados de abril, a direção do SBT tinha por hábito encaminhar as queixas para o instituto que as respondia prontamente. No final daquele mês, porém, a emissora mudou de tática. Veiculou uma campanha que prometia prêmios às famílias que possuíssem o "aparelhinho da TV". "Os telespectadores provavelmente não entenderam a mensagem. Mas nós e o Ibope, sim", diz Rafael Sampaio, vice-presidente executivo da Associação Brasileira dos Anunciantes (ABA).

O "aparelhinho" é o "people-meter" — que o Ibope instalou nos televisores de 600 domicílios da Grande São Paulo. O equipamento registra o canal que cada televisor está sintonizando. Minuto a minuto, o Ibope divulga para emissoras de TV e agências de publicidade as informações que recebe de 256 residências. Os dados com os demais domicílios saem um dia depois da coleta.

"Só o Ibope pode saber em que lugares estão os 'aparelhinhos'. O sigilo é necessário para garantir que ninguém interfira nas amostras. Quando o SBT lançou a campanha, pôs em risco a confiabilidade de nossa pesquisa", explica Ana Lúcia Lima, diretora da Divisão de Mídia do instituto.

Como os índices do Ibope norteiam o mercado publicitário, a Associação Brasileira das Agências de Propaganda (ABAP) e a ABA pediram que o SBT retirasse a campanha do ar. A emissora concordou. Em troca, ABA e ABAP promoveram, no dia 27 de maio, uma reunião para discutir o assunto. Além do SBT, compareceram a Globo, Record, Manchete e Bandeirantes.

Na reunião, depois de apresentar uma série de reclamações, o SBT propôs a criação de um instituto que fizesse pesquisas de audiência paralelas às do Ibope. A emissora estimou que a implantação do novo órgão vai custar cerca de US$ 5 milhões. Anunciou, ainda, que está desenvolvendo há dois anos um aparelho capaz de executar as mesmas funções do "people-meter". As outras emissoras ficaram de se posicionar sobre a proposta em meados de junho.

Na noite da última sexta-feira, porém, o SBT veiculou novamente a campanha dos "aparelhinhos". "Resolvemos, então, interromper a divulgação dos índices de audiência — até nos certificar de que não houve quebra de sigilo", afirma Ana Lima, do Ibope. Às 15h08 de anteontem, o órgão retomou as atividades normais. "Não nos cabe julgar se vale a pena criar outro instituto. Lamentamos, apenas, que o SBT esteja insatisfeito com nossos serviços", diz Ana Lima.

Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 52443