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Jornal/Revista: O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 24/10/2004
Autor/Repórter: Leila Reis

'ESCRAVA' ABRE ESPAÇO

"O bom desempenho da novela da Record no ibope mostra que há público para ficção nacional fora da Globo"

Sob todos os pontos de vista, este é o país das novelas. Para o público, os dramas em capítulos diários são quase um vício. Para o mercado publicitário, uma ampla vitrine para seus produtos. E para as emissoras, em conseqüência, o sonho dourado que lhes garante - se tudo sair nos conformes - anunciantes comprometidos por mais de seis meses. Ou seja, novela com audiência é sinônimo de dinheiro em caixa.

Essa percepção justifica a euforia que tomou conta da Record esta semana. Depois do desastre chamado Metamorphoses - que misturava máfia japonesa e "transplante de rosto" -, Escrava Isaura se saiu tão bem que conseguiu tirar do SBT o segundo lugar no ranking de audiência no horário, em sua estréia. A saga da escrava branca imaginada por Bernardo Guimarães acrescentou 5 pontos à média do Ibope da Record no horário, que foi para 12% (na Grande São Paulo).

O bom desempenho se repetiu em outras praças. No Recife, a média dos três primeiros capítulos foi de 19 pontos. Em Salvador, foi de 13, em Curitiba, Fortaleza e Rio de Janeiro, em torno de 10.

A engrenada que a novela deu de saída estimula a ousadia. A direção da Record já fala em inaugurar um segundo horário de novela em março ou abril.

Os requisitos que levam uma novela ao sucesso e outras ao fracasso são uma incógnita. A boa acolhida à Escrava Isaura não pode ser explicada somente pela reprise de uma história produzida pela Globo em 1978, que correu o mundo com Lucélia Santos no papel de Isaura e Rubens de Falco, no de Leôncio.

A regravação de sucessos não é garantia de ibope. O SBT fez gol no remake de Éramos Seis, mas naufragou na reedição de Os Ossos do Barão e de As Pupilas do Senhor Reitor.

A emissora credita a entrada com pé direito a Herval Rossano (veterano que dirigiu a primeira versão na Globo), ao elenco e ao investimento. Pode ser isso e mais alguma coisa. O fato é que, ao contrário da antecessora, Metamorphoses, o espectador sentiu o profissionalismo a que se acostumou na Globo. Escrava Isaura traz uma narrativa com pé e com cabeça, tem atores experimentados para segurar a trama e um cuidado visual pouco visto fora da Globo.

Rubens de Falco, no papel do Comendador Almeida (pai do personagem que defendeu há 26 anos), está magnificamente perverso. Nem o excesso de pancake (a equipe da maquiagem acha que pode funcionar como fonte da juventude) embota a caracterização que Rubens faz do escravocrata brasileiro e que permeia o imaginário popular. Leopoldo Pacheco é um Leôncio bem convincente e também de acordo com a imagem que se tem da oligarquia que se beneficiava da mão-de-obra negra não só na lavoura. A protagonista Bianca Rinaldi é meio careteira, mas desempenha direito.

A s cenas da senzala, do trabalho no campo e da paisagem rural são bem resolvidas, têm iluminação e textura que denotam cuidado. O pecado é cometido nos figurinos. Os vestidos e adereços da matriarca Gertrudes (Norma Blum) são pavorosos. Os das outras damas parecem bolos de noiva de tão enfeitados.

Talvez seja uma atitude ideológica, uma propensão a torcer pelo lado mais fraco. Mas a verdade é que o figurino dos escravos e das mucamas da fazenda é mais fashion.

O fato é que a novela Escrava Isaura está apontando um caminho interessante. Primeiro porque mostra que é possível emplacar uma novela sem lançar mão de dramalhões mexicanos. Mais do que isso, ao agradar uma parte significativa da audiência, amplia a oportunidade de trabalho para roteiristas, técnicos e atores experientes como Miriam Mehler, Mayara Magri e Paulo Figueiredo. E ajuda a formar novos profissionais que até então só tinham a porta da Globo para bater.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 103445