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Jornal/Revista: ISTO É - Gente
Data de Publicação: 28/10/2004
Autor/Repórter: Rodrigo Cardoso

ESCRAVA ISAURA

Protagonista de A Escrava Isaura, da Record, Bianca Rinaldi teve de escurecer o cabelo, usar lentes de contato, manter a pele branca e aprender a sorrir de boca fechada para viver a personagem. Ela diz que só passou a se valorizar após recorrer a uma "casuloterapia" e conta como a relação com o pai, que ela conheceu aos 26 anos

Em junho, ela foi proibida de tomar sol. Desde então, nos dias de folga anda a cavalo numa hípica coberta, almoça na casa da mãe, vai ao cinema ou assiste a filmes em casa. Na fazenda em Santa Gertrudes (SP), onde passa a maior parte do tempo trabalhando, está sempre com um guarda-chuva aberto e protetor solar fator 30 na pele. "Nem fazer caminhada num parque domingo de manhã eu posso. Estou me sentindo uma vampira", brinca. Ambientes fechados e noturnos são os points de Bianca Rinaldi desde que foi escolhida para ser a protagonista de A Escrava Isaura. A novela, nova versão do livro de Bernardo Guimarães, estreou na Record no último dia 18 e tem colocado a emissora em segundo lugar na audiência no horário com média de 12 pontos.

Bianca foi escalada pelo diretor de Escrava, Herval Rossano, logo no primeiro encontro. "Quero que você faça a Isaura. Quero que aprenda a sorrir de boca fechada e não tome sol. Tá bom?", disse-lhe Herval, que dirigiu a primeira versão na Globo em 1976. Aos 30 anos, loira e de olhos azuis, Bianca aceitou o pacote. Só que precisou de mais: passou a usar lentes de contato castanhas e escureceu os cabelos. Maria da Glória Silva Rinaldi, 58 anos, mãe da atriz, não gostou. "Tem gente que não a reconhece. A tia dela, um dia desses, me perguntou: 'Vi de longe que você conversava com alguém. Quem era?' Era a Bianca."

Isaura é o papel mais importante da carreira de Bianca - é a terceira novela dela, que também já fez seis peças. A atriz leu o livro de Bernardo Guimarães, mas não quis assistir à versão da Globo, que tinha Lucélia Santos no papel principal, para não se influenciar. A Isaura de Bianca tem cara de sofrimento, demonstra alegria sem euforia, como pede a sua personagem, desde o momento em que a atriz acorda. "Um dia, quando iria gravar as cenas da morte da minha madrinha, já saí de casa sofrendo. Nem dei bom dia ao Eduardo (Menga, empresário e namorado de Bianca). Na maquiagem, o pessoal perguntava: 'O que foi, Bianca? Tá tudo bem?'", conta ela. "Vivo pela novela, sou escrava da escrava Isaura. Era um sonho fazer uma novela de época."

A fase é boa, mas a trajetória de Bianca é repleta de obstáculos. Profissionalmente, a instabilidade a incomoda - antes de Escrava, sua última novela fora em 2001, em Pícara Sonhadora, do SBT. "O meio artístico é instável e os altos e baixos me desestabilizavam", conta. "Não deixava de fazer as coisas do meu dia, de acreditar nas coisas que eu queria, não ficava de cama deprimida. Mas sentia uma tristeza, uma insatisfação."

Em busca de autoconhecimento, Bianca recorreu à casuloterapia, um método psicoterapêutico no qual se busca confiar em si mesmo e vencer os medos. Durante três dias, em 2002, ela ficou recolhida num chalé, em Piracaia (SP). Sem livro, celular, televisão ou rádio, só ouvia o ruído do vento e da água de uma cachoeira. Lá, era estimulada por dois terapeutas - os únicos com quem podia se comunicar - a rever suas dificuldades e a pensar somente em si. "Tive medo e vontade de pular da janela. Mas os terapeutas vão te induzindo. Quando você vê, já virou uma borboleta", conta ela. "Aprendi a me valorizar depois da casuloterapia."

Bianca fala que o método a ensinou a reconhecer os problemas e a não torná-los maiores do que são. "Quando decidi ser atriz, queria ser atriz de verdade, de grande talento e reconhecimento. Mas não faço essa escalada pensando no pico da montanha, porque corro o risco de não chegar", diz ela, que já foi paquita e atuou em Malhação, na Globo. "A Globo eleva o ator a um grau de reconhecimento e sucesso. Mas nunca coloquei a Globo como meta. O que busco é trabalhar com atores que admiro."

Não foi a primeira vez que atriz recorreu à terapia. Em 2001, um problema familiar foi detectado nas suas sessões e Bianca foi aconselhada a conhecer o pai biológico, Hosannah Gonçalvez de Oliveira, hoje com 57 anos. "Na época, sofri muito. Ele tinha duas namoradas e casou-se com a outra", conta a mãe de Bianca, Maria da Glória. "Trabalhávamos num hospital, convites de casamento dele foram espalhados por lá. Ele se casou em setembro e, em outubro, a Bianca nasceu. Achei que ele não devesse vê-la."

Bianca foi criada pela mãe e o padrasto, que morreu quando ela tinha 11 anos - ela tem uma irmã por parte de mãe e outros dois por parte de pai. Aos 26, ela telefonou para Hosannah e marcou um encontro. "Não esperava que ela me procurasse, sei que fiz falta para ela", afirma o pai. "Em 6 de julho de 2001, às 12h30, nos encontramos num restaurante. Cheguei 15 minutos atrasado porque lembrei que ela merecia um buquê de rosas. Foi um abraço de muita emoção. Um dia, perguntei se poderia chamá-la de minha filha e ela concordou." Hoje, a atriz almoça na casa do pai, encontrou afinidades, como as mãos parecidas, mas se ressente da convivência. "Não o conheço ainda. São quase 30 anos sem ter contato. Essa relação ainda é estranha e ele percebe", diz Bianca.

As marcas desse abismo afetivo estão arquivadas. A hora é de fazer planos. Há dois anos ela vive com Eduardo Menga, de 52 anos, 22 a mais que ela. "Eu quero casar no primeiro dia de lua cheia. Ou num sítio que tenha uma cachoeira por perto, ou numa praia. E tem de ter pôr-do-sol. Só caso assim", diz. "E ter filho, né?"

Menga conta que os dois estão construindo um chalé em Piracaia - a cidade da casuloterapia - e diz que as idades fazem diferença para o lado positivo: "Juntar a experiência com a jovialidade é maravilhoso". Da vaidade, Bianca conta que não é escrava. "Não gosto de me depilar e não tenho pa-ci-ên-cia para ficar no cabeleireiro. Gosto de sair de boné, macacão, moletom. Às vezes, o Eduardo fala: 'Você vai sair assim? Põe uma roupinha melhor'. Não tenho paciência de ficar me arrumando." O que ela gosta mesmo é de fazer pé e mão. E de pegar um solzinho de vez em quando. Mas, para ganhar esta alforria terá de deixar de ser escrava de Isaura.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 103572