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Jornal/Revista: VEJA
Data de Publicação: 03/11/2004
Autor/Repórter: Ricardo Valladares

A VOLTA DO LERÊ-LERÊ

Nem tão igual, nem tão diferente. Assim é a nova Escrava Isaura, da Record

No ar há apenas duas semanas pela Rede Record, a nova versão da novela A Escrava Isaura já tem seu lugar assegurado como uma das mais bem-sucedidas malandragens da história da televisão brasileira. Com a regravação do folhetim que a Rede Globo exibiu nos anos 70, a Record dobrou seu ibope na faixa das 7 da noite e conquistou a vice-liderança no horário, com 11 pontos de média. Pela lei, a emissora tem direito de usar livremente tudo o que está no romance original, escrito por Bernardo Guimarães no século XIX e já em domínio público. Ela não pode avançar sobre idéias que o noveleiro Gilberto Braga aproveitou em sua versão televisiva de 1976. Mas há uma margem de manobra da qual a Record se aproveita até onde pode. A música-tema, por exemplo, é a mesma: a célebre "melô do lerê-lerê". O ator Rubens de Falco, que interpretou o vilão Leôncio na produção da Globo, também está em cena - devidamente munido de sua peruca, como naquela época (veja quadro). "Perdi meus cabelos quando tinha 20 anos e desde então sempre usei", diz ele. Até uma parte considerável da equipe da novela foi tirada da rede carioca, de câmeras e roteiristas ao diretor Herval Rossano, o mesmo da original. Nos bastidores, a concorrente acompanha tudo com atenção. Os advogados da Globo analisam cada cena para flagrar se a Record não ultrapassa os limites do permitido.

Ao investir 18 milhões de reais numa novela, a Record fez a opção por um produto com retorno certo. A Escrava Isaura foi um grande fenômeno em sua época e até hoje desperta saudade. Uma pesquisa indica que 53% do público da nova versão tem mais de 35 anos, ou seja, pôde acompanhar a novela original. Poucos programas contaram com um vilão e uma mocinha tão marcantes. O implacável Leôncio é considerado por especialistas como Mauro Alencar, doutor em telenovelas pela Universidade de São Paulo, o mais acabado malfeitor do gênero. O papel de Isaura transformou a atriz Lucélia Santos em celebridade até na China, um dos oitenta países onde a novela foi exibida. A história é cheia de cenas de sofrimento e redenção. "É uma história que atiça o pequeno sadomasoquista escondido em cada um de nós", afirma um diretor da Record. Para não dizer que tudo é cópia, a emissora acrescentou à trama núcleos cômicos bem ao gosto do público atual, que se acostumou a ver novelas de gêneros cruzados, em que o dramalhão e o humor se combinam. Ela programou 144 capítulos para a novela, mas, se o ibope continuar em alta, a escrava Isaura pode esperar ainda mais tempo para ter a sua Lei Áurea.

VIDA DE NEGOR - Semelhanças e diferenças entre as adaptações de A Escrava Isaura da Rede Globo e da Record

- O ator Rubens de Falco trocou de papel - no passado, interpretava o vilão Leôncio e, agora, é o comendador Almeida. Mas ele continua usando peruca.

- A produção da Record exibe na abertura gravuras do francês Jean-Baptiste Debret, como o sucesso da Globo dos anos 70.

- A música-tema é a mesma Retirantes, poema de Jorge Amado cantado por Dorival Caymmi - aquela do refrão "lerê-lerê...".

- O leve estrabismo, que era o charme da escrava Isaura vivida pela jovem Lucélia Santos no primeiro folhetim, está de volta. Só que agora essa é a marca da personagem Malvina (Maria Ribeiro).

- Para dar leveza à história, foram criados vários núcleos cômicos.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 103771