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Jornal/Revista: Época
Data de Publicação: 08/11/2004
Autor/Repórter: Beatrriz Velloso

"A TELINHA É UMA INCÓGNITA"

Aos 69 anos, Herval Rossano comanda o bem-sucedido remake de A Escrava Isaura, que está garantindo à Record o segundo lugar de audiência no horário

Herval Rossano, de 69 anos, fez uma cirurgia para trocar o marca-passo há pouco mais de uma semana, em 28 de outubro. Na quarta-feira, com um corte de 7 centímetros no peito, estava de volta ao batente. O batente, nesse caso, são as gravações de A Escrava Isaura, novela que a Record exibe há três semanas com bons resultados: média de 11 pontos no horário das 18h45 e um louvável segundo lugar no Ibope, atrás apenas da Globo.

Rossano dirige o folhetim pela segunda vez. A primeira foi em 1976, quando esteve à frente da versão mundialmente famosa, com Lucélia Santos no papel-título. É ele o principal responsável pela virada na dramaturgia da Record, que amargava o mico da novela Metamorphoses. Foi Rossano quem orientou a emissora a investir pesado em equipamento e a montar uma equipe técnica competente. Tudo à custa de vasta experiência e de um estilo exigente e contraditório: Rossano é ranzinza e bem-humorado ao mesmo tempo.

VIDA PESSOAL - Tem oito filhos. Separado da atriz Nívea Maria, com quem viveu por 27 anos, namora atualmente a também atriz Mayara Magri

Ousadia - Em 1986, dirigiu a primeira cena de nudez em uma novela, com Maitê Proença em Dona Beija, na TV Manchete

ENTREVISTA

ÉPOCA - As propagandas de A Escrava Isaura dizem que o amor vence tudo, ''até a mania de assistir à novela sempre no mesmo canal''. É difícil competir com a Globo?

Herval Rossano - Quando vim para a Record, eu disse: ''Não vou arrebentar a Globo, isso não é fácil. Quero beliscar. E darei a vocês o segundo lugar''. Já cumpri a promessa: o segundo lugar no horário é da Record. Mas não me preocupo muito. Trabalhei no México, no Chile, na Globo, na Tupi, na Manchete. Descobri que televisão é tudo igual.

ÉPOCA - Essa novela tem uma estrutura de folhetim tradicional, à moda do século XIX. O espectador gosta do arroz com feijão?

Rossano - Sei lá, não acho nada! A telinha é uma incógnita. Tem gente que gosta do arroz com feijão, tem gente que odeia. É impossível saber. Mas eu tinha um feeling de que ia dar certo. Foi um risco que topei correr.

ÉPOCA - Quantos anos o senhor tem?

Rossano - Uma porrada.

ÉPOCA - E quanto é ''uma porrada''?

Rossano - Como você é chata! Por que quer saber?

ÉPOCA - Porque poucas pessoas na sua idade têm disposição para correr riscos.

Rossano - É, pode ser. Outro, no meu lugar, estaria em casa respirando oxigênio artificial, descansando. Tenho 69 anos. E não penso em parar. Quando você souber que estou fazendo A Guerra dos Cem Anos, pode ter certeza de que será meu último trabalho. Este é meu sonho: transformar o livro do Mario Vargas Llosa (sobre a Guerra de Canudos) numa novela. É um desafio bom.

ÉPOCA - Muita gente reclama que a programação da TV brasileira é ruim. O senhor concorda?

Rossano - Quem diz que a televisão é negativa é bobo. Com o controle remoto essa conversa não vale mais. O controle dá a escolha ao espectador, ele tem o recurso do zapping. O telespectador não pode ser tratado como vítima. Ele assiste ao que quer. Se não quer, muda de canal. Eu, por exemplo, adoro um programa de mundo cão. Cidade Alerta, essas coisas. É horrível, mas eu vejo. É uma loucura perceber a que ponto chega o ser humano, tentar entender o que leva um pai a matar um filho. Mas muita gente vê por vingança: ''Estou sofrendo, quero ver os outros sofrer também''. Algumas imagens de violência são mesmo difíceis de digerir.

ÉPOCA - Falta tato na escolha do que vai ao ar?

Rossano - Pode ser. Mas o que me irrita mais é a manipulação. Um exemplo é a cobertura das eleições nos Estados Unidos, feita pela TV americana. Todo o mundo já sabia que o Bush estava reeleito, mas ninguém falava nada. Ficaram enrolando durante horas. Isso é sacanagem. O homem estava eleito! E, na minha opinião, para melhor. Vou dizer por quê. Existe um inimigo mundial chamado Osama Bin Laden. E só tem um cara capaz de enfrentá-lo: o Bush. Ele não tem o menor pejo de dizer: ''O.k., joga uma bomba atômica lá. Vamos acabar com o Bin Laden''. Não existe coisa pior que o terrorismo. O Bush pelo menos tem peito de partir para cima.

ÉPOCA - O senhor trabalhou em várias emissoras. Ainda existe novidade?

Rossano - Não, as situações se repetem. O fundamental é aprender o que não se deve fazer. Trabalhar com atores é assim, a cada dia você aprende uma manha. Se começa a ver macaquinhos no ombro de um ator, é porque não acredita nele. Existem interpretações técnicas e interpretações de verdade. Eu não gosto de técnica. Não gosto de uma lágrima, uma lágrima não significa nada. Posso fazer um ator chorar com colírio, com cristal japonês. Prefiro que a interpretação venha de dentro.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 103871