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Jornal/Revista: O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 26/12/2004
Autor/Repórter: Reis Leila

SOB O SIGNO DO MAL

A malvadeza é o ícone da TV em 2004. Nunca a teledramaturgia foi tão feliz na escultura do caráter vilão. Celebridade, melhor novela do ano segundo os críticos da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), não será lembrada pela heroína Maria Clara de Malu Mader, mas pelos tipos que se movimentaram para exercitar o mal.

Deliciosamente cruel, o jornalista Renato Mendes (Fábio Assunção) mirava nos inimigos pisando na cabeça dos amigos. O amigo Joel, a avó, o irmão, Renato não perdoava quando a vontade de maltratar vinha. No reverso da medalha do mal estava a efígie de Laura (Cláudia Abreu), que destilava veneno contra a inimiga-mor Maria Clara, enquanto sapecava com seu desprezo todos ao seu redor, inclusive os aliados.

Mais do que a catártica surra de Maria Clara em Laura (que estourou o ibope da novela), o embate entre os dois gênios do mal gerou os melhores momentos. A fase em que Laura foi prisioneira de Renato - produzindo uma esgrima diferente a cada noite para o telespectador - foi a mais divertida.

O ano também foi da bruxa Bárbara (Giovanna Antonelli) na novela Da Cor do Pecado. As maldades dela eram tão espetaculares que ofuscaram a heroína Preta (Taís Araújo). João Emanuel Araújo (prêmio APCA de revelação) construiu uma personagem tão má que nem o filho poupava. O menino era instrumento de chantagem, de humilhação, e, cruelmente, do carinho da mãe. Mérito do autor e da atriz, Bárbara ficou mais horrível por ser humana.

É mais ou menos o caso da ensandecida Nazaré, maravilhosamente interpretada por Renata Sorrah (também premiada pela APCA), em Senhora do Destino. A fortaleza de Maria do Carmo (Suzana Vieira) não será a virtude mais lembrada quando no futuro se falar da novela, por causa da Nazaré. Ex-prostituta, cachaceira, ladra de bebês, chantagista, assassina, Nazaré é do balacobaco, mas também é uma mãe amorosa. Mas não está só no setor perverso de Senhora do Destino: Reginaldo (Du Moscovis) e Viviane (Letícia Spiller) também entram para a galeria.

As articulações do casal ficam piores por terem um objetivo calculado: o poder político. Nazaré raptou e mentiu por amor. Reginaldo só quer se dar bem, como o estereótipo do político no imaginário popular. Dá para prever o regozijo do público quando a justiça de novela descer sua espada sobre esses personagens. Será mais aplaudida e vista do que a surra que Nazaré levou de Maria do Carmo.

A crueldade não mora só na Globo. No Brasil escravagista, na fazenda onde vive a escrava Isaura (Bianca Rinaldi), a perversidade tem nome: Leôncio. O personagem criado por Bernardo Guimarães no romance Escrava Isaura (adaptado para a TV por Gilberto Braga em 1978 e reeditada pela Record, com texto de Thiago Santiago e Ana Maria Nunes) indignou o Brasil e o mundo na pele de Rubens de Falco. Hoje é interpretado por Leopoldo Pacheco. Sádico, canalha, devasso e egoísta, Leôncio tortura escravos, em especial Isaura, sua vítima preferida por não dar vazão a baixos instintos. Esse empenho cruel credencia Leôncio a figurar no clube dos vilões de 2004.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 105298