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Jornal/Revista: O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 02/04/2006
Autor/Repórter: Taíssa Stivanin

ELE DÁ CONTA DO RECADO

Cidadão que dá nome à novela da Record, Gabriel Braga Nunes admite que já teve um pé atrás com a emissora

Gabriel Braga Nunes, 34 anos, chega para conversar com o Estado de chinelos, bermudão, olhos inchados de sono. Puxa uma cadeira na varanda de uma casa da Fazenda Bela Manhã, onde vem sendo gravada a novela Cidadão Brasileiro, desculpa-se pelo atraso e engole um bocejo. Eis o protagonista da novela da Record, o personagem-título da trama, Antônio Maciel. Grava 15 horas por dia, cinco dias por semana para pôr no ar a história de Lauro César Muniz. O cansaço de Gabriel é visível, mas isso não abala seu bom humor. Brinca com todo mundo, dá risada. Nem parece que tem pedigree - é filho do diretor de teatro Celso Nunes e da atriz Regina Braga - e trata a profissão sem frescuras. Leva a entrevista como se estivesse em um bate-papo de bar. Antes que a gente se despedisse, Gabriel ainda teve tempo de alcançar o carro da reportagem para dizer: "ei, põe aí que vou casar esse ano e é a primeira vez que quero ter filhos." Esse Antônio Maciel...

- Como é lidar com um personagem ao mesmo tempo protagonista e antagonista?

- Eu faço um herói cheio de conflitos. Ele está o tempo todo em contato com dúvidas do tipo: ser pobre e honesto ou me corromper para enriquecer? Isso é uma questão tipicamente brasileira, e o fato de estar com várias mulheres ao mesmo tempo. Um herói brasileiro é necessariamente um herói erotizado. A coragem de arregaçar as mangas e construir coisas, sem medo de errar. Um cara simples, popular, com pouca instrução, mas que consegue circular bem nas elites. Ao mesmo tempo é capaz de botar tudo a perder por um gesto absurdo de ingenuidade.

- Há alguns anos, em uma entrevista, o diretor Jayme Monjardim, da Globo, disse que você fazia parte de uma geração promissora de atores. Era, portanto, um galã em potencial da casa. Por que trocou de emissora?

- Ele falou isso de mim? Deve ser por causa de Terra Nostra, que fizemos juntos. Bom, eu não mudei de emissora. Eu sempre fui frila, nunca fui da Rede Globo. Fiz seis novelas lá, mas nunca fui da casa. Eu tive propostas da Record mais interessantes. As condições de trabalho que eu tenho aqui são melhores. E também aconteceu que na Globo meus personagens estavam se repetindo. Eu não estava conseguindo fazer um herói. Fazer um homem íntegro como fiz em Essas Mulheres era o que eu procurava.

- E você veio para cá nesse pacote? Fazer 'Essas Mulheres' e emendar 'Cidadão'?

- Não, vim fazer Essas Mulheres. Fiz um contrato por obra. A novela deu muito certo e na reta final pintou um convite, então fiquei na casa. Mas não houve essa história de "abandonei a Globo para vestir a camisa da Record". Assim que acabar Cidadão estou livre, não sei o que vou fazer depois. Gosto de independência.

- Você parece que leva a profissão sem nenhum glamour. Como se fosse um funcionário. É isso mesmo?

- (Risos). Eu não sei. Talvez pelo fato de ter mãe e pai ator, desde cedo no meio do teatro, talvez isso tenha me dado uma visão mais objetiva do que seja a profissão. Mesmo TV, foi uma coisa que entrou na minha vida aos 25 anos de idade. Eu era contra TV.

- Contra, por quê?

- Não sei, nunca tinha chegado perto desse mundo, nunca vi novela. Quando eu estava fazendo faculdade (é formado em Artes Cênicas pela Unicamp), as oportunidades que apareceram em TV não me interessaram. Na adolescência, achava que novela era nocivo para o país. Mas depois, aos vinte e poucos anos, tive um insight, achava que era cedo para estar preconceituoso com a profissão de ator.

Uma de suas primeiras experiências foi na Record, na minissérie 'Por Amor e Ódio'.

Antes fiz Razão de Viver no SBT que eu adorei. Para mim foi especialíssimo, como eu nunca tinha feito. Depois da novela, fui morar em Londres. Gastei tudo o que eu tinha ganho, que não era tanto assim, e quando voltei, voltei duro. A sorte foi que quando eu cheguei o Atílio Riccó me chamou para fazer uma minissérie na Record, de 30 capítulos, que virou 50.

- Como você avalia essa diferença entre atuar na casa em 1997 e agora?

- Naquele momento, não tinha estúdio. Gravava tudo em Itu (interior de São Paulo), era tudo locação. A qualidade técnica era outra. Não dá para se criticar as pessoas que estavam ali porque as condições que a emissora disponibilizava para a teledramaturgia eram outras. Muito tempo depois, houve a possibilidade de fazer o galã da Escrava Isaura, mas não aconteceu.

- Por quê?

- A falta de um acordo financeiro e também porque eu ainda não confiava na casa. Eu tinha medo de ficar exposto e pagar pra ver. Mas a Escrava Isaura foi muito bem, meu grau de confiança aumentou. Fui mais simpático à idéia de trabalhar na Record. Era uma decisão que ainda envolvia riscos, porque a emissora ainda não estava estabilizada. Mas eu vim. Essas Mulheres foi muito legal, tivemos um retorno bom de crítica. A partir dessa novela, a classe de atores de São Paulo e Rio ganhou muito mais simpatia pela Record, venceu os preconceitos e começou a ter vontade vir trabalhar aqui. Isso foi significativo em Essas Mulheres, mesmo que não tenha sido um grande sucesso de audiência.

- Em algum momento você se questionou, indo para a Record, pelo fato de a Igreja Universal estar por trás da emissora?

- (Suspira). Essa é uma questão ampla. Se você fizer uma investigação de todos seus contratantes, vai entrar em um universo muito maluco. Não vejo problemas, a partir do momento em que a obra não está sendo panfletária. Outra coisa, novela é obra aberta. A gente nunca sabe os temas que serão abordados no capítulo seguinte. Então se lá pelo capítulo 100 seu personagem vira gay, não é você que responde por isso, é o autor.

- Era de se esperar alguma patrulha moral na novela. E no entanto somos surpreendidos com cenas do Antônio Maciel dizendo que é 'avantajado'. Então parece que está tudo liberado, é isso?

- A gente esbarra em limites morais. Pessoalmente eu acho saudável você esbarrar em limites morais, porque provoca reflexão. E não acho bom ultrapassar agressivamente limites morais, porque você pode agredir a família brasileira (risos). Essa é minha posição. Em Cidadão Brasileiro somos questionados sobre momentos em que esbarramos nesses limites. Com relação à igreja, não tenho religião e não tenho nenhum problema em estar trabalhando em uma emissora que pertence a uma igreja.

- Na sua adolescência você tinha banda de rock hardcore. Como foi essa costura entre a música e o teatro?

- Comecei a estudar violão aos dez anos, e foi de longe a coisa que eu mais gostei de fazer na minha adolescência. Escrevia muito, compunha muito, desenhava muito. Era muito afeito a atividades de criação solitária. Ficava muito tempo no meu quarto criando coisas. Aos 13, comecei a fazer aula de teatro na escola. Eu era tímido e as aulas começaram a trabalhar com o jogo, as relações, a troca. Fui seduzido. O teatro e me fez abandonar todas as atividades de criação solitária. Parei de escrever, desenhar tocar e mergulhei no jogo e passei a aprender mais sobre o outro, a vida e as relações.

- E aí você escolheu o ofício de ator.

- Essa profissão tem um caráter de descoberta pessoal... (Gabriel interrompe). Pára, é meio brega essa coisa de descoberta pessoal, é muito brega (risos). É fascinante porque faz você aprender mais sobre si mesmo pela experiência de outros, de personagens. E eu melhorei muito socialmente desde que virei ator... em compensação, meu caráter piorou muito (risos). Personagens como Olavinho, de Anjo Mau (1998), embora ele fosse um grande fdp, me melhoraram socialmente. A cara-de-pau, o despudor, essa coisa do Antônio - "cheguei e abalei" -, que o Gabriel nunca teve.

- Como seu pai foi uma referência para você no teatro? Vocês se distanciaram cedo, quando ele se separou de sua mãe, Regina Braga.

- A gente não cresceu perto dele, mas, quando éramos crianças, meu pai trabalhava muito, emplacando peça atrás de peça. Era comum passar as férias de verão no Rio de Janeiro, porque ele estava em temporada e a gente ficava morando no hotel com ele e o acompanhando ao teatro. Com minha mãe também freqüentei muita coxia, camarim. O contexto de uma educação assim faz que você já cresça e já esteja inserido, moldado para a cultura daquela profissão.

- Como foi o reencontro com seu pai na peça 'K2'?

- Ele me falava muito dessa peça, que ele tinha na gaveta há 15 anos, mas tinha preguiça de produzir. Meu pai mora em Floripa, tem barco, a vida dele é outra parada. Então comecei a visitar empresas com meu projetinho debaixo do braço. Demorou 2 anos e meio para a captação, consegui captar R$ 560 mil, meio milhão. Primeira produção minha. Aí contratei meu pai! E trouxe ele para me dirigir.

- É curioso que no meio de uma família de atores, há o doutor Dráuzio (Varella, atual marido de Regina Braga). O lado racional dele o influencia?

- Muito, convivo com ele há 23 anos. É complementar. Ele teve uma influência muito positiva na minha educação.

- Você já se casou três vezes, não é?

- Não é bem assim. Já tive três relacionamentos de morar junto e três relacionamentos importantes na vida. Três não, estou no quinto, na verdade. Mas, nesse plano pessoal, considero que estou vivendo a relação mais vertical da minha vida.

- O que é vertical?

- Fundamental, mais importante. Ih, não fala importante - as outras vão me ligar para reclamar, porque somos amigos.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 118834