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Nova Consulta

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 03/06/1988
Autor/Repórter: Cora Rónai

ENFIM, O RÁDIO COM FIGURINHAS!

Foi um grande acontecimento: às 11h da manhã do dia 1°, pela primeira vez em onze anos, o velho Canal 13 deu o ar de sua graça. Chiou, zumbiu, tremeu, custou a entrar no ar, até as antenas serem devidamente ajustadas foi um sufoco, mas, finalmente, fez-se a imagem onde antes só havia chuviscos - e lá estávamos nós às voltas com mais um canal de televisão. Meio perdido, meio descoordenado, muito pobrinho e terrivelmente nostálgico... mas, pelo menos nesse primeiro dia, com uma genuína vontade de agradar ao público e de conquistá-lo pela cumplicidade. A tônica foi o apelo ao telespectador, o constante pedido de opiniões, cartas, sugestões, idéias, participação.

Pode dar certo, até porque, curiosamente, a nova TV Rio mais parece uma estação de rádio com figurinhas do que um canal de televisão propriamente dito. Talvez seja pelo jeitão de alguns dos apresentadores, egressos de FMs, e conservando todos os tiques de djs; talvez seja pelo feitio da programação, em que uma sucessão aparentemente interminável de videoclips é entremeada com pequenas entrevistas, gracinhas dos já mencionados apresentadores e notícias; talvez seja pela acentuação da redundância musical num hit-parade em que os dez melhores clips do dia são reprisados; talvez seja por tudo isso ao mesmo tempo. O fato inegável é que, para quem gosta de videoclip, a TV Rio é um prato cheio.

Para yuppies saudosistas também: todos os dias, às 20h3Omin, vai ao ar a Sessão preto e branco, com jóias como Mod squad, Cidade nua, Além da imaginação, Paladino, o defensor da justiça e Na corda bamba. Na estréia da emissora, as emoções correram por conta do Paladino e de Nik, o homem que anda na corda bamba - dois seriados fantásticos, da época em que mocinho era mocinho e bandido, bandido. Uma delícia! Quem assistiu Na corda bamba foi brindado com a superioridade rigorosamente cool do herói, que diz coisas como "Estávamos tão perto da morte que podíamos sentir o cheiro das flores". No final, pronto para outra, ele comenta, a voz grave: "Estou voltando do submundo. Parece que um cara me seguiu, ou talvez fosse uma sombra. Mas são assim as coisas..." Uau! [ilegível]

Se- o primeiro dia da nova emissora pode ser considerado uma carta de intenções, parece que os leitores de jornais sanguinolentos encontraram o seu segundo lar. Em nome de uma suposta "busca da verdade", a reportagem se dedicou, com particular afinco, às minúcias das mortes de Alvinho e Buzunga, cujos cadáveres foram longamente exibidos sob todos os ângulos que as câmeras conseguiram captar. Uma "cobertura" moral e esteticamente questionável, talhada em cima de um sensacionalismo da pior espécie. Ainda por cima, como a TV Rio ainda não tem o seu equivalente ao plim-plim da Globo, as imagens do corpo de Buzunga sendo atirado no camburão ou do perito estudando o finado Alvinho praticamente se fundiram aos mimosos videoclips que alegravam a tarde.

Assim como os clips são reapresentados no hit-parade, as "melhores" imagens do telejornal também são revistas, às 20h, acompanhadas dos comentários de Affonso Soares, a grande estrela do jornalismo do Canal 13. Um repórter de polícia pesadão, com todo o físico do rolo, de eternos óculos escuros, gravata solta e paletó amarrotado, ele trata policiais e bandidos com a intimidade de um velho conhecido: "Esse policial aí é meio irônico", observava na quarta-feira em relação a um dos chefes da operação Rocinha, "mas se você está indo atrás de bandido, meu filho, tudo bem, estamos com você." Ao mesmo tempo, exortava a população trabalhadora a confiar na PM: "Um dos rapazes que foi preso diz que trabalha, que tem dois filhos para criar. Pode ter até dez, ora. Se você é um cara de bem, fica tranqüilo que a polícia não vai te fazer nada." Um otimista.

Apesar disso, os jovens repórteres da TV Rio são simpáticos, despachados e têm garra para ir atrás das notícias que interessam à casa. As vezes acabam atropelados pela pressa, como a mocinha que, num determinado momento, informou que "os assassinos ainda estão em poder do Escort roubado": tudo bem. Isso pode acontecer com qualquer um. O que não pode acontecer é a confusão que a direção do 13 anda está fazendo entre ingenuidade e incompetência: a velha TV Rio dos anos 60 era ingênua, mas o Brasil era ingênuo.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 131450