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Jornal/Revista: Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 11/06/1992
Autor/Repórter: Hugo Studart

GRUPO IBF COMPRA A REDE MANCHETE

A Folha apurou que a empresa se tornou detentora da quase totalidade das quotas do sistema de rádio e TV

O grupo IBF, de São Paulo, é, o novo sócio da rede Manchete. O negócio foi concretizado ontem, no Rio de Janeiro, pelo empresário Hamilton Lucas de Oliveira, acionista majoritário da IBF (Indústria Brasileira de Formulários), carro-chefe de um conglomerado que fatura US$ 250 milhões ao ano e detém o controle do grupo DCI-Visão e de 40% das ações da TV Jovem Pan, além de responder pelo fornecimento dos bilhetes das "raspadinhas" federal e paulista. O grupo IBF está sendo acusado de ter sido favorecido pelo esquema de Paulo Cesar Farias , o PC, para obter a concessão para a impressão das "raspadinhas".

Em comunicado oficial, a empresa anunciou a aquisição de 49 % das quotas do sistema Manchete de rádio e TV, mas a Folha apurou que a IBF tornou-se detentora da quase totalidade das quotas. A TV Manchete detinha anteontem o 6? lugar na audiência na Grande São Paulo no horário entre 19h45 e meia-noite, segundo o Data Ibope. Segundo a Folha apurou, o faturamento da TV em 91 foi de US$ 100 milhões, o que a classifica como terceira no ranking, atrás da Globo e do SBT. O novo diretor da rede é o jornalista David Raw, diretor da área de mídia eletrônica da IBF e representante da empresa na direção da TV Jovem Pan.

Os valores da transação não foram divulgados, mas, segundo um retransmissor da Manchete que preferiu não se identificar, Adolpho Bloch e os demais sócios, Oscar Bloch e Jacques Kepler, receberam cerca de US$ 15 milhões - US$ 5 milhões a menos do que haviam pleiteado e US$ 5 milhões a mais do que a oferta apresentada inicialmente por Hamilton Lucas de Oliveira. Os US$ 20 milhões pretendidos por Bloch equivalem à diferença entre o patrimônio líquido da rede, US$ 110 milhões, e suas dívidas totais, US$ 90 milhões.

Pelo contrato assinado, a IBF fica com todos os equipamentos da emissora no Rio, mas terá que retirá-los do edifício-sede da Manchete, na praia do Russel. Em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Recife, a IBF tornou-se dona dos equipamentos e também dos imóveis da Manchete. A intenção é transferir a sede da rede para São Paulo até o final deste ano.

Adolpho Bloch não queria vender a emissora, mas foi pressionado por seus sócios. De quebra, a IBF também entrou em campo para forçar o desfecho da negociação a seu favor.

Na segunda-feira, um emissário da empresa procurou a diretoria jurídica do Banco do Brasil - que já executaras dívidas da Manchete no valor de US$ 25 milhões - e pediu o adiamento, por mais alguns dias, da execução de uma dívida de pouco mais de US$ 10 milhões. A empresa comprometeu-se com o banco, o maior credor da Manchete, a saldar o compromisso assim que fechasse o negócio. Foi atendida.

Além disso, na terça-feira, dois outros emissários da IBF, David Raw e Flávio Mueller, foram às sedes da Manchete no Rio e São Paulo, respectivamente, e anunciaram aos funcionários que estavam pagando todos os salários atrasados. A pressão sobre Adolpho Bloch, por parte de funcionários, credores e sócios, tornou-se insuportável. Na terça-feira à tarde ele finalmente cedeu.

BLOCH QUERIA O CORTE NA DÍVIDA - Adolpho Bloch, um dos donos da Rede Manchete, foi ao Palácio do Planalto na quinta-feira passada pedir ao ministro Jorge Bornhausen que o governo perdoasse parte de sua dívida junto ao Banco do Brasil.

Bloch queria que Bornhausen pressionasse o presidente do BB, Lafayete Coutinho, para que o isentasse de pagar os juros de uma dívida de US$ 90 milhões. Ele só queria pagar a correção. O ministro aconselhou-o a pedir a Collor, que não o recebeu.

Foi a última tentativa de Bloch para evitar a venda da emissora. Há dois anos que ele reclama ao governo que não quer pagar juros sobre juros. Um dia antes de procurar Bornhausen, Bloch disse a amigos que seu maior orgulho na vida era jamais ter outorgado uma escritura e que iria morrer sem vender seus bens. Aos 84 anos, Bloch era o maior empecilho à venda da TV.

Recentemente, chorou diante do presidente. Collor disse: "Então não venda, Adolpho". Eufórico, ele pensou que havia recebido um sinal de que teria ajuda. Ontem, Bloch chorou ao acertar a transferência.

O IMPÉRIO IBF - Grupo projeta faturamento de US$ 250 milhões em 1992

. Nome: Indústria Brasileira de Formulários Fundação: 1943

. Sede: São Paulo

. Controlador: Hamilton Lucas de Oliveira

. Filiais: 50

. Setores de atuação: gráfico e comunicações

. Faturamento (1991): US$ 168 milhões

. Funcionários: 4.000

. Unidades industriais: 11 no Brasil e um em Londres

. Parque gráfica: 75 impressoras "off-set"

DIVISÕES

. Formulários: produz formulários personalizados e padronizados para grandes empresas.A atividade representa entre 30% e 40% do faturamento anual.

. Editorial: jornais "DCI" e "Shopping News" mais o título do "Correio da Manhã"; revista "Visão" e publicações técnicas do grupo "Dirigente"

. Segurança: produz talões de cheques, bilhetes aéreos, loteria instantânea,jogos promocionais de empresas, carnês de pecúlio, cautelas de ações e vales transporte e refeição, entre outros itens.

. Mídia eletrônica: detém 40% das ações da TV Jovem Pan (UHF) e negocia a compra da Rede Manchete de Televisão.

. Aero-print: empresa sediada na Inglaterra, especializada no fornecimento de bilhetes de passagens aéreas para companhias de 90 países, entre as quais a British Airways. É uma das três maiores do mundo neste ramo de atividade.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 152286