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Nova Consulta

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 17/08/1991
Autor/Repórter: Ricardo Miranda Filho

PLANALTO EM DIA DE CARROSSEL

Crianças invadem palácio para ver professora Helena

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto foi invadido no final da tarde de ontem por mais de duas mil crianças, que ocuparam salas e corredores depois da cerimônia de descida da rampa. O gabinete do presidente Fernando Collor, instalado no reservado terceiro andar, foi tomado por duas dezenas de crianças. Collor teve de terminar seus despachos acompanhado de um punhado de meninos e meninas gritando e chorando no seu ouvido. O expediente terminou mais cedo porque os funcionários perderam as salas e outros estavam acompanhando os filhos no evento. Mas o fenômeno de popularidade infantil, que provocou a tomada inédita do prédio e deixou os seguranças sem qualquer reação, não era o presidente Collor, e sim a atriz mexicana Gabriela Rivero, a professorinha Helena da novela Carrossel, do SBT.

Eram tantas crianças cercando a professorinha que, depois de descer a rampa, o presidente, que deveria embarcar no carro oficial, teve de abrir um precedente: subiu a rampa de volta para não causar um tumulto maior. As crianças invadiram a pista, subiram em cima do carro e não deixaram o presidente arrancar com seu comboio.

Gabriela definitivamente roubou a festa. Quase ninguém notou que entre outros convidados do presidente para descer a rampa estavam a miss Patrícia Godoy e uma certa Maria Odete Brito de Miranda, na verdade a cantora Gretchen - exibindo o marido e uma gravidez de seis meses. Collor desceu a rampa ao lado da atriz mexicana e de Rosana Malta, irmã da primeira-dama Rosane. Desde cedo, o segundo andar do Palácio do Planalto estava tomado por 300 filhos de funcionários. A professorinha, com vestido rosa e bandeira do Brasil na mão, chegou e foi recebida por um coro de fiéis espectadores. Quando o presidente cumprimentou Gabriela, ficou claro que nenhum dos dois usava aliança de casamento. A estrela de Carrossel estava acompanhada do empresário Ruy Rophsthilt de Souza, diretor do Grupo Pão Americano (Pulmann), que patrocinou sua vinda ao Brasil, e de Walter Wanderley Vaz do Nascimento, produtor do SBT.

"Abre tudo" - Assim que terminou a descida da rampa, Collor tentou voltar para seu gabinete acompanhado de Gabriela, que entregou ao presidente uma medalhinha, mas um punhado de crianças o seguiu até o palácio. Os seguranças tentaram esvaziar o gabinete, mas o presidente, preocupado com a segurança das crianças, que se empurravam contra as paredes, reagiu. "Abre tudo agora", ordenou Collor. Diante da resistência dos seguranças, acostumados a receber outro tipo de ordem, o presidente insistiu: "Não discute, abre tudo". Collor ficou despachando, enquanto a professorinha distribuía autógrafos. "Valeu a pena sair furando todos esses seguranças", comemorou o menino Eduardo Silva Brito, de 10 anos. Uma começou a chorar e só parou de chorar quando ganhou um beijo da professorinha.

As portas de algumas salas do segundo e terceiro andares tiveram de ser trancadas. Outras salas foram improvisadas em verdadeiras creches. A sala de xerox passou a ser usada para distribuir cópias de uma fotografia da professorinha e foi montado um serviço de atendimento a crianças perdidas, que atendeu pelo menos dez meninos e meninas que correram atrás da professorinha e esqueceram os pais. Obrigada a cancelar a entrevista - a porta da sala foi tomada pelos garotos, impedindo sua passagem - a atriz tomou o elevador privativo e deixou o Planalto pela garagem.

Quando as crianças finalmente abandonaram o prédio, ficaram espalhadas sobre o carpete dezenas de bilhetes e cartas de amor para a professorinha que não alcançaram sua destinatária.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 16394