PUC-Rio

Voltar

Nova Consulta

Jornal/Revista: VEJA
Data de Publicação: 21/04/2010
Autor/Repórter: Marcelo Marthe

FRACASSOS MODERNOS

Mais uma experimentação malfadada no horário das 7, Tempos Modernos tem a pior audiência dos últimos dez anos. A fórmula para salvá-la prevê mais melodrama e menos tecnologia

O noveleiro Bosco Brasil passou os últimos dois meses enfurnado em seu apartamento, no Rio de Janeiro, no meio de uma batalha inglória: a busca de uma salvação para a periclitante Tempos Modernos, seu primeiro trabalho como autor principal na Globo. Ao estrear, em janeiro, Tempos Modernos se anunciava como um folhetim inovador – mais um daqueles flertes com a experimentação nos quais a Globo às vezes se lança na novela das 7. O edifício "inteligente" em que se passa a história seria uma entidade com vida própria sob comando de Frank, um computador. O núcleo dos roqueiros dava pretexto para pontuar o enredo com referências à música pop e aos gibis. Até agora, porém, o resultado é um vexame idêntico ao de antecessoras que também apostavam em fórmulas pretensamente transgressoras, como As Filhas da Mãe (2001), narrada em ritmo de rap, ou Bang Bang (2005), ambientada em um Velho Oeste de fancaria. Tempos Modernos amarga os piores índices de audiência do horário na década. Lançada após a bem-sucedida Caras & Bocas, a novela registrou pífios 22,8 pontos de média na Grande São Paulo em seus oitenta capítulos iniciais; a Globo esperava ao menos 30 pontos. O sucesso de Walcyr Carrasco era estrelado por uma macaca-pintora – sua substituta, em compensação, tem um computador que se revelou um verdadeiro mico.

Em suas sondagens com donas de casa, a Globo constatou o óbvio: cheia de pedantismos modernosos, a trama não tinha os ingredientes essenciais a um melodrama. Frank – um genérico de Hal 9000, o computador do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968) – revelou-se um penduricalho sem graça que só dificultava a identificação do público com seu mentor, o magnata Leal (Antonio Fagundes). Decidiu-se, então, silenciar o computador, que perdeu a fala depois de ser contaminado por um vírus. Seu dublador, Márcio Seixas – que, nos anos 70, deu voz a Hal 9000 –, pode perder o emprego. "Faz tempo que não gravo. É triste", diz. (Fagundes, ao contrário, deve estar numa alegria só: o ator andava constrangido de dialogar com as paredes.) Além da poda de firulas tecnológicas, investiu-se mais nas tramas românticas. Até Deodora, a vilã robótica interpretada pela ex-Big Brother Grazi Massafera, começou a se "humanizar". Apaixonada pelo personagem chatonildo de Felipe Camargo, já mostra até sinais de remorso. Aparentemente, as telespectadoras não gostaram de ver a atriz afastar-se do costumeiro figurino de boa moça. Grazi, aliás, anda com pé-frio. Estreou como mocinha em Negócio da China (2008), a mais malfadada trama das 6 dos últimos anos. E agora vive sua primeira antagonista no fracasso da década.

Voltar

Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 164546