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Jornal/Revista: Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 15/11/1992
Autor/Repórter: Ricardo Valladares

ASCENSÃO E QUEDA DA REDE OM

Em apenas oito meses, a OM se envolveu em polêmicas e ficou conhecida como a rede que não paga

Denúncias de ligação com PC Farias, censura a filmes eróticos, demissão de funcionários. Esses foram alguns dos problemas que a rede OM enfrentou em apenas oito meses de vida.

Primeira cadeia nacional fora do eixo Rio-São Paulo, de propriedade dos irmãos José Carlos e Flávio Martinez, e sinal gerado a partir de Curitiba e transmitido via satélite para o resto do País, a rede OM começou a cair em agosto.

Por coincidência, na mesma época foi denunciado pela CPI do PC Farias que José Carlos Martinez havia recebido dois cheques do "fantasma" José Carlos Bomfim, no total de US$ 4,5 milhões. Os cheques teriam sido usados para pagar parte da dívida de US$ 15 milhões que a OM tinha com o SBT pela compra da TV Corcovado. Lançada como quinta rede nacional de televisão em VHF, a OM estreou com 30 emissoras filiadas, em 13 estados, 2.000 funcionários e um investimento inicial de US$ 6 milhões. Hoje, tem 1.750 funcionários, 41 emissoras e 300 filiadas, que atingem 53% dos televisores do território nacional, segundo Martinez.

Em São Paulo, a TV Gazeta retransmite o sinal da OM a partir das 18h; no Rio de Janeiro está das 8h às 2h na TV Corcovado. Segundo o assessor de comunicação da Gazeta, Gilberto Gomes, "a OM até agora está cumprindo os acordos operacionais e financeiros".

O departamento de esportes da OM, dirigido por Galvão Bueno, é responsável pelo maior índice de audiência e 60% do faturamento da rede. Segundo o jornalista da OM, Mário Jorge, "nenhum profissional, dos 50 da folha de pagamento, foi demitido".

O jornalismo da emissora não teve a mesma sorte. O ex-diretor de jornalismo, Dante Matiussi, pediu demissão no início de setembro porque viu seus projetos irem por água abaixo . "A OM passava por dificuldades financeiras e resolvi pedir demissão", diz Matiussi. Só em São Paulo o jornalismo demitiu 54 profissionais (leia texto abaixo). Martinez diz que demitiu "porque a equipe de São Paulo era muito grande para fazer um jornal de apenas cinco minutos".

Atualmente, esse departamento conta com sete profissionais e, segundo eles, há uma semana, a equipe de jornalismo não tinha ao menos um carro para fazer reportagem.

FUTEBOL E EROTISMO RENDEM AUDIÊNCIA - Dentre os cem filmes que a OM comprou, três conseguiram o primeiro lugar de audiência - "Calígula", "Alcova" e "Leão Branco - O Lutador sem Lei". "Calígula" criou polêmica quando teve sua exibição interrompida antes do final, devido a uma liminar da Justiça. Mesmo assim, conseguiu 16 pontos segundo o DataIbope na Grande São Paulo, da mesma forma que o erotismo de "Alcova", um pouco mais "light". Na linha "bordoadas", a violência de Jean Claude Van Damme bateu as outras emissoras com "Leão Branco". Mas a grande jogada da OM foi o futebol. O jogo final da Taça Libertadores da América entre São Paulo e Newell's Old Boys atingiu a maior audiência para a OM: 34 pontos em 17 de junho.

EX-FUNCIONÁRIOS QUEREM RECEBER SALÁRIOS ATRASADOS - A jornalista Leonor Corrêa, ex-apresentadora do programa de variedades da OM, "Coçando o Sábado", diz que no último mês em que trabalhou para a OM (agosto) não recebeu os US$ 3 mil que lhes eram de direito. "Esta semana meu advogado vai entrar na Justiça com uma ação trabalhista", diz Leonor. Consultado, o dono da emissora, José Carlos' Martinez afirmou não dever "um centavo a Leonor".

Valéria Balbi, ex-apresentadora do "Jornal da OM" e mulher de Guga de Oliveira, ex-diretor artístico da rede, é outra que se diz prejudicada. "Tenho direito a receber os últimos meses, e posso provar facilmente que trabalhei, pois meu rosto apareceu no vídeo até o final de setembro", afirma.

No último dia 10, cerca de 50 funcionários demitidos do departamento de jornalismo da OM em São Paulo tiveram que recorrer ao sindicato dos jornalistas para receber o salário depois que a OM lhes deu um cheque sem fundo.

Para o jornalista Cláudio Favieri, 44, é "um absurdo o descaso com que a emissora trata seus ex-funcionários. A situação piorou a cada dia. A sucursal não tinha mais dinheiro para colocar gasolina nos carros de reportagem, pagar as locadoras dos veículos e papel para fax porque devia para a papelaria".

A produtora paulista ABS também ficou na mão. "Apesar de já ter feito acordo e recebido uma parcela de US$ 20 mil, faltam duas de US$ 30 mil que devo receber até o final do ano. Enquanto não ver a cor do dinheiro, eles continuam em débito; é difícil acreditar que o lobo vai virar um cordeiro", diz Manuel Barembaum, um dos sócios da ABS, produtora responsável pela produção de toda a linha de shows da rede OM.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 19719