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Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 24/03/1993
Autor/Repórter: Denise Moraes

SOS REDE MANCHETE

Show no Circo terá renda revertida para funcionários da TV

Um help para os funcionarios da TV Manchete. Dezoito artistas sobem hoje no palco do Circo Voador, na Lapa, para um show beneficente com renda revertida para os 1.300 profissionais cariocas da emissora. Eles estão desde dezembro de 1992 sem receber salários e continuam acampados na sede da TV, na Glória, que está ocupada desde a segunda-feira da semana passada.

Enquanto ainda tentam viabilizar um encontro com o presidente da República Itamar Franco e o ministro do Trabalho Walter Barelli; com a intenção de conseguir uma intervenção do ministério público na Rede Manchete, o comando de greve dos funcionários da emissora, junto com o pessoal do Sindicato dos Jornalistas e do Sindicato dos Radialistas, arregaçam as mangas para garantir a própria sobrevivência.

Eles conseguiram adesões de alto peso artístico. Por Cr$ 80 mil, o público solidário com o drama dos que levaram o calote do empresário Hamilton Lucas Oliveira - proprietário do grupo IBF, que controla a TV - vai poder assistir a shows de artistas como Paulinho da Viola, João Bosco, Edson Cordeiro, Verônica Sabino, Nana Caymmi, Moreira da Silva e os grupos Blues Etílicos e Diz Isso Cantando, a partir das 19h, na lona do Circo Voador.

"No Brasil cada vez mais vai ser assim: um precisando socorrer o outro, pelo menos enquanto as instituições não se organizarem para cumprir seus deveres com seus funcionários", diz o cantor e compositor João Bosco, que não descarta a hipótese da noite servir para alguns encontros marcados na última hora, como, por exemplo, o dele com Paulinho da Viola dividindo o microfone.

Antes do show, haverá caras-pintadas na porta da emissora, na Rua do Russel. Com faixas e muita tinta no rosto, estudantes de Comunicação Social das faculdades Estácio de Sá, UFRJ, PUC e Hélio Alonso (na Facha, o próprio diretor, Plínio Muto, suspendeu as aulas de hoje) vão manifestar seu apoio à causa dos funcionários da Manchete, em ato programado para as 13h. "Os estudantes de comunicação são os que têm o maior interesse em manter esse mercado", diz um dos funcionários em greve, encarregado de arregimentar os estudantes.

OS APELOS AO GOVERNO - Artistas e estudantes ajudam, mas, para os funcionários da Manchete, providencial seria a adesão irrestrita de Itamar Franco, Walter Barelli e Hugo Napoleão. O presidente e o ministro do Trabalho já manifestaram sensibilidade à causa. Mas os grevistas reclamam do comportamento "indiferente e distante" do ministro das Comunicações. Um assessor do ministro Napoleão diz que ele prefere aguardar as negociações em andamento antes de anunciar o parecer sobre a legalidade da transferência das ações da emissora para o empresário Hamilton Lucas Oliveira, que tramita há um mês na Consultoria Jurídica do ministério.

Segundo o assessor, existem três soluções: "Ou a IBF resolve seus problemas e toca a Manchete, ou ela não resolve e a rede retorna ao dono anterior, ou a rede passa para outro grupo." O ministro também pode "tirar a Manchete do ar, através da Embratel, mas está tentando evitar essa decisão", diz o assessor. Ele descarta também a intervenção ("Só por ordem judicial") e a cassação da concessão. Por isso os sindicatos lutam também para tirar a TV das mãos de Hamilton Lucas. "A saída seria a intervenção do ministério, em função das dívidas com o INSS, o FGTS e a Embratel", diz a presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio, Beth Costa. Estima-se em Cr$ 1 trilhão a divida total do grupo.

A situação econômica é tão confusa quanto a programação. Desde sexta, todos os programas produzidos pela rede, como Clodovil e Almanaque, estão sendo reprisados. E os grevistas tomaram conta da videoteca da rede no Rio para impedir que sejam retiradas as fitas com a novela Ana Raio e Zé Trovão, o documentário Quarup, a minissérie Floradas na serra e a série Fronteiras do desconhecido, anunciadas como próximas atrações. O pagamento dos atrasados é o primeiro passo para a solução. Beth Costa diz que os funcionários já aceitam o parcelamento do pagamento de dezembro e janeiro, "desde que depositem a metade da folha de fevereiro". Os funcionários aguardam as decisões do Tribunal Regional do Trabalho. Há duas semanas a greve foi julgada legal, mas não foi dado prazo à empresa para pagar os salários, o que só vai ser decidido no dia 18 de abril.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 20993