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PUC-Rio
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Jornal/Revista: Folha de S. Paulo Data de Publicação: 14/09/1993 Autor/Repórter: David França Mendes
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'AGOSTO' MENOSPREZA INTELIGÊNCIA DO PÚBLICO COM MUITO MANEIRISMO
Mulher fatal em "O Dono do Mundo", Letícia Sabatella muda de lado em "Agosto": no papel de Salete, sucumbe à concorrência desleal de Vera Fischer na disputa pelo galã da minissérie, José Mayer". No livro de Rubem Fonseca, não é questão central saber "com quem acaba o Mattos", mas na minissérie é.
Reconstituição de época, fotografia cuidadosa, decupagem mais elaborada, para quê? Para quê, pela milésima vez na TV, as pessoas tenham com que passarem uma parte de suas noites querendo saber com quem "acaba" o galã. "Agosto" é só um exemplo dessa velha falta de assunto. Um exemplo mais grave, pois não se trata de mais uma historinha inventada por um noveleiro profissional, mas de um romance escrito por um dos bons autores nacionais vivos e que tem uma trama mais interessante do que "com quem acaba o Mattos".
A onda agora é esse papo de novelas cinematográficas. Apelido que inventaram para esses produtos audiovisuais que contam as mesmas histórias do tempo da Janete Clair, só que com uma luz bacana, contraplanos mais fechados e uns planos de conjunto caprichados. Tudo bem feito, o pessoal que está atrás das câmeras sabe o que faz. Só que o que eles narram não pede nada daquilo. Fica tudo maneirista. Um travelling não é bonito em si, mas pelo efeito que ele produz no contexto dramático. E o contexto dramático das novelas é a burrice.
As novelas são vampiros da nossa indigência cultural. São feitas para os pobres, que nunca puderam saber nada, para a classe média, a quem ensinaram a ler, mas não a pensar. E, de quebra, para os que tiveram acesso a uma -boa educação, mas que preferiram a preguiça mental. As novelas não estão no nível das pessoas despreparadas para o mundo que a falta de ensino básico produz: estão abaixo, puxando as pessoas ainda mais para baixo. Esse truque das "novelas cinematográficas" é uma tentativa de legitimar o consumo de novelas por parte da minoritária parcela mais ou menos esclarecida da classe média.
Uma vez, numa entrevista, Caetano Veloso disse que não achava suas letras difíceis. "Tenho a certeza de que todo mundo pode entender tudo", ele falou. O pessoal da TV acredita numa outra premissa. A de que "nunca se perdeu dinheiro menosprezando a inteligência do público".
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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 22878