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Nova Consulta

Jornal/Revista: O Globo
Data de Publicação: 05/10/1994
Autor/Repórter: Telmo Martino

MULHERIO FANTASIADO QUER DINHEIRO

Ver o programa do Sílvio Santos é, no mínimo, uma experiência angustiante. Sofre-se o tempo todo uma sensação de perda. E a vontade constante de estar fazendo outro programa ou, então, de estar vendo outro programa. Como o "Domingão do Faustão", por exemplo. Os dois são programas de auditório, mas separados por uma vital diferença. Enquanto o programa do Faustão é feito também para quem está em casa, o do Sílvio Santos é um programa de auditório apenas para auditório. Nem os chineses foram capazes de inventar uma tortura semelhante. A gota d'água perde.

Tudo começa muito cedo com um rapaz lourinho, gordinho e baixinho emendando, muito dedicado, brincadeiras de salão. Ele se chama Augusto Liberato e é o mais sofrido lever de rideau da história dos espetáculos. E só depois de seus esforços que surge o Sílvio Santos. Um deles. Pois existe a desconfiança de que são vários. Nem mesmo muito bem pago, um homem só agüentaria enfrentar, sozinho, tantas horas de constrangimento.

E verdade que a principal função e o primordial atrativo desse Sílvio Santos é sua distribuição de prêmios, com o sorteio de uma tal de Tele Sena, ou de recompensas que exigem a participação emocional de alguém. Nunca se viu um programa de prêmios que fosse tão pouco generoso.

Sob o comando de Sílvio Santos, a platéia aparece vestida para um luau. Há quem faça alguma música e - que perigo! - aparece uma menina que quer ser parecida com a Elba Ramalho. Supõe-se que seja porque essa cantora é a única nordestina sempre bem recebida em São Paulo. Luiza Erundina até que tentou. Não demora muito, todos se dão conta de que aquele Havaí está mais para Haiti, com Papá Santôs dando e cobrando.

No momento em que Papá Santôs precisa ler alguma coisa, ele se vale de um pince-nez comprado nas Óticas Clodovil. Está na hora de animar um quadro que parece querer reconciliar os casais que namoraram e casaram na TV. O quadro se chama "Em nome do amor" e permite que o apresentador quase conselheiro observe que "as pessoas muito ciumentas são misóginas". O almoço foi há algumas horas, mas a vontade de jantar desapareceu.

Aos poucos o animador vai ficando à vontade. Está com um relógio todo de ouro e um anel tipo jóia no dedo. Cruza a perna e lá está aquela meia curta mostrando um pedaço branco de perna. Uma moça chamada Madalena Bonfiglioli (pensar que já foi nome de banco) tenta ajudar os casais numa reconciliação. Nem sempre consegue. Alguém pode estar, sem qualquer emoção, numa melhor.

Abre-se, então, a "Porta da esperança". "Nós conversamos", diz Sílvio Santos abrindo o verbo. Vai pagar caro por isso. Logo depois aparece uma moça querendo consertar sua mandíbula deslocada. Diz que quer um ortodontista. Sílvio Santos, que já não soube conjugar o imperativo do verbo fugir, não consegue enfrentar tanta ortodontia. A porta é da esperança ou do desespero?

Já o "Tudo por dinheiro" é mais divertido porque mais humilhante. Com suas unhas cintilantes, o animador mostra que tem mais dinheiro no bolso do que um bookmaker. A moça ganha R$ 50. "Quer tentar dobrar?" A platéia grita "Teinta, teinta", num coro barrafundista. Todo mundo se cumprimenta com três beijinhos e grita que quer dinheiro, sempre que o Sílvio Santos pergunta. Já são 11 horas da noite e o homem está feliz com aquele mulherio fantasiado por acaso ou deliberadamente. Onze horas. Será que o relógio está adiantado ou é o Sílvio Santos que está atrasado? Quem souber a resposta não ganha dinheiro. Paga?

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 26140