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Nova Consulta

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 23/11/1997
Autor/Repórter: Márcia Carmo

É BRINCADEIRA

As crianças brasileiras só querem saber de cantar as músicas e de imitar as Chiquititas, personagens da novela do SBT que dá até 20 pontos no hora do 'Jornal nacional'

Gabriela Brito, de 8 anos, quer que a mãe a leve à Argentina para tentar uma vaga no elenco de Chiquititas. Rafael Henrique Alves, de 10, jura que se jogaria na frente caso uma flecha fosse lançada na direção das Chiquititas.

Outras crianças, como as irmãs Jéssica, de 11, e Lorena Zarattini, de 7, escreveram para a SuperTV pedindo que a revista passe a publicar o resumo dos capítulos. Por aí dá para sentir a extensão do sucesso que a novela de sotaque portenho faz entre os brasileirinhos. A trama que o SBT produz em parceria com a Telefe argentina atinge até 20 pontos de Ibope no horário do Jornal nacional, da Globo.

Mas termômetro mesmo é o primeiro disco da trilha de Chiquititas: foram 780 mil cópias em dois meses. E a previsão é de 1 milhão até dezembro. O de Angélica, lançado no mesmo período também pela Sony Music, nem passou perto: 270 mil. O Boas noticias, de Xuxa, que saiu pela Som Livre, está na marca da 400 mil. "É mesmo um fenômeno. E olha que não toca nas rádios", avalia o gerente de imprensa da Sony, Verter Brunner, dando como exemplos outros álbuns infantis da gravadora, como Balão mágico, que vendeu quase 2 milhões de discos, e Vou de táxi, lançado por Angélica em 1987, que esbarrou em 1 milhão. "Mas os dois só atingiram a marca em um ano", compara. Na mesma situação de venda a longo prazo está o recorde alcançado por Xuxa no terceiro disco, de 1988, com o carro chefe Ilariê: 3,7 milhões de cópias.

Pode não tocar nas rádios, mas é disso que se fala nas escolas. "Eu e minhas amigas brincamos de chiquititas no recreio todo dia", conta Jéssica, que estuda no Colégio Pedro II e se imagina direitinho como uma das crianças da novela. "Se as Chiquititas morressem morreria junto porque lá no céu ia poder conversar com elas. Tenho fama de bicha no colégio porque gosto da novela. Nem ligo, sei que não sou mesmo", diz Rafael Henrique Alves, de 10 anos. Caroline Marcelino, da mesma idade, tem uma explicação para a novela ter virado sua cabeça e a de seus amigos: "Chiquititas mostra coisas que existem na vida real e que estão longe da realidade de crianças como eu."

Para garantir que a mágica prossiga, uma nova versão do CD e a segunda fase da novela já estão certos para o próximo ano. Também serão lançados produtos da turma do orfanato Raio de Luz. A lista, encabeçada pela revista que na Argentina tem tiragem de 125 mil cópias quinzenais, inclui brinquedos, livros, roupas, alimentos, figurinhas e material de papelaria. Quinze indústrias brasileiras querem entrar no filão. "Só queremos produtos que se identifiquem com a novela", diz o argentino Ernan Azcune, da Telefe, responsável pelo licenciamento da marca. Ernan vislumbra o Brasil como um mercado três vezes maior que o argentino: "Na Argentina o primeiro disco vendeu 210 mil cópias, o segundo 400 mi e o terceiro, recém-lançado, está na casa de 300 mil."

O faturamento anual com produtos da grife, incluindo o show que a turma faz durante as férias argentinas, está em torno de R$ 20 milhões.

A receita tem entre os ingredientes as músicas da argentina Cristina De Giácomi, um grupo de crianças conduzindo a narrativa e as historinhas contadas pela protagonista Mili (Fernanda Souza). A novela, exibida com dublagem em 16 países, faz sucesso há três anos na Argentina. O estúdio da Telefe é a perfeita tradução da palavra Mercosul: nele gravam, desde junho, os elencos argentino e brasileiro. O 156º capítulo da primeira fase exibida no Brasil vai ao ar em janeiro. A adaptação de Ecila Pedroso corresponde a duas fases da trama original, já que os capítulos brasileiros têm 60 minutos, o dobro de lá.

Nos próximos capítulos, mais duas atrizes passam a integrar o elenco de meninas: Carla Dias, de 6 anos, será Maria, e Laura Feliciano, de 8, fará Laurinha. Os cinco chiquititos vão virar oito. A primeira fase termina com José Ricardo, avô de Mili, morrendo com a governanta Valentina num acidente de carro. Com eles se vai o segredo de Mili, já que sua mãe, Gabi, perdeu a memória assim que ela nasceu. Carmem, tia-avó de Mili, sabe do passado da menina, mas jamais vai contar a verdade para não ter que dividir a herança. Conclusão: Mili continua no orfanato na segunda fase. Mas quem sabe Gabi não volta recuperada do tratamento no exterior?

A trupe deve desembarcar no Brasil no fim do mês para gravações externas. E, a partir deste domingo, os principais momentos desta trama estarão no resumo de novelas da SuperTV. É a vitória das crianças!

NA ARGENTINA, ONDEM MORAM,AS CRIANÇAS SÃO ANÔNIMAS

Autor/Repórter: Marcia Carmo

BUENOS AIRES - Fernanda Souza, de 13 anos, nunca deu tantos autógrafos como na última visita a São Paulo, sua terra natal. Há três semanas, a protagonista de Chiquititas e suas colegas foram convocadas para uma participação no Domingo Legal. O assédio começou no aeroporto, seguiu nos estúdios do SBT e continuou em casa. Na Argentina, elas são anônimas. Só não passam despercebidas porque andam em grupo. Dividem o endereço, a escola, o ônibus e trabalham as mesmas seis horas por dia. Morando na Argentina, os atores-mirins acompanham o sucesso que fazem no Brasil por recortes de revistas, cartas de fãs, ligações internacionais. E pela fita gravada da novela, a que assistem juntos. "Guardo tudo com o maior carinho", diz Magall Biff, que foi Ernestina e agora se reveza entre Matilde e a bruxa Vamperina. Pierre Bittencourt, de 13, está em Buenos Aires com a mãe, a dona de casa Nonata. Ela e mais 13 crianças passaram, entre 1.700 candidatos, no teste para chiquitita. "Não repare a zona", avisa ao abrir a porta do camarim, que divide com quatro meninos. No espelho há um pequeno calendário com a foto sexy de uma morena. "Não é meu, juro. Colocaram ai", diz o rapazinho, que atuou em filmes como Perfume de Gardência, de Guilherme de Almeida Prado, e Com que roupa, sobre Noel Rosa.

Louras, morenas, ruivas e negras como seus personagens, as crianças, entre 8 e 13 anos, têm em comum alguma experiência artística. Todos aprenderam espanhol e dividem o dia entre as aulas no Instituto Educacional Nações Unidas e as gravações. Além da saudade de casa. "A gente dá um jeitinho pra tudo. Mas a saudade do Brasil é o mais difícil", diz Fernanda Souza, que antes de ser a Mill participou de um Você decide e de Retrato de mulher, da Globo. Fernanda tem uma teoria para o sucesso da versão brasileira de Chiquititas: "O horário das oito é ingrato para as crianças no Brasil. E a novela mostra realmente o que acontece entre elas: o amor, as brigas, as amizades, enfim".

As mães esperam o fim das gravações papeando no Chico Fuxico, sala de lazer improvisada no estúdio da Telefe. No burburinho quase não se percebe a voz dos homens. José Frade, pai de Gisele, é um dos poucos pais que acompanharam a cria. "Ela é exatamente como a danadinha da Bia. Só é mais carinhosa", paparica. Semelhanças não faltam entro as crianças da novela e as da vida real. "A minha personagem, a Ana, é uma tontinha, não entende logo as coisas. Eu me pareço com ela. Demora a cair a ficha, sabe?", compara a ruivinha Beatriz Botello. Paqueras também estão sendo transferidas para longe das câmeras. Fernanda jura que não tem sequer um flerte, mas as mães garantem que rola o maior clima com Paulo Nigro, de 13 anos, que faz o Júlio. Ao lado de Beatriz, ele ri quando o assunto é o coração. "O meu personagem é um romântico", desconversa.

Outro patriarca da comitiva é o ex-autônomo João, marido de Francisca e pai de Luan, que vive o Binho. O casal largou tudo para acompanhar o filho. "Aos 10 anos, o indiozinho do Rá-Tim-Bum é o melhor empreendimento da família. Como as outras crianças, recebe US$ 1.500 numa conta no Brasil e uma ajuda de custo de US$ 3. Bem mais do que ganhavam os pais como autônomos em São Paulo. Bem recompensada também se sente Flávia Monteiro, 25 anos, a Carolina, diretora do orfanato. "Levo a vida que pedi a Deus", diz a atriz, que nos intervalos de gravação estuda canto e passeia pela Rocoleta, bairro onde mora o elenco adulto. À noite Flávia freqüenta boates com o namorado, Leonardo Franco, que entrou na trama como funcionário da fábrica de brinquedos. "Não sabemos o fim da história e por isso podemos somar personagens novos", explica Roberto Monteiro, produtor do SBT, alimentando a esperança de milhares de crianças que sonham com uma vaga neste orfanato.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 35683