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Jornal/Revista: O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 28/04/1996
Autor/Repórter: Beatriz Velloso

'PONTO A PONTO' MANDOU MAL MESMO

'Ponto a Ponto' mandou mal mesmo

Novo game de domingo mostra que a Globo ainda não descobriu como falar com o jovem

Mandou mal. A expressão se aplica bem ao game show Ponto a Ponto, que a Globo está levando ao ar no horário das 15 horas de domingo. Mandou mal é ainda uma das frases mais faladas pelos apresentadores Márcio Garcia, Danielle Winitz e Ana Furtado durante a gincana que o Jardim Botânico incluiu em sua nova programação para brigar com o Domingo Legal de Gugu Liberato. Mas, de acordo com o Ibope, Ponto a Ponto está mandando bem: tem superado o programa do SBT com 19 pontos contra 14 na Grande São Paulo. Se Domingo Legal já não é o melhor exemplo de programa inteligente para jovens, com Ponto a Ponto a situação fica preocupante. Uma gincana pela fórmula usada em muitos países (o próprio Ponto a Ponto é baseado num game espanhol), pode até ser divertida. Mas na história recente do gênero, a Globo conquistou medalha de ouro no quesito mediocridade. A produção é endinheirada, inclui cenários mirabolantes, gente pendurada no teto e uma banda ao vivo. Mas todo o esforço resulta inútil.

Senão vejamos: a bateria de provas inclui absurdas como um carro que explode, depois de ser destruído com um machado por um competidor que precisa encontrar jóias escondidas no veículo. Alguns testes são engraçadinhos e ingênuos, como aquele em que o rapaz tem de abrir cinco baús debaixo d'água e formar uma palavra com as letras que encontra em cada um deles. Mas o nível de inteligência vai daí para baixo.

Uma outra prova coloca a competidora de mãos atadas, ajoelha

da debaixo de uma árvore falsa com uvas penduradas, para comer as frutos usando só a boca. Detalhe: algumas cobras estão espalhados pelos galhos. Ainda no território dos répteis e anfíbios, à certa altura uma garota deve atravessar quatro cubículos com o chão forrada de peleca (aquela gororoba esverdeada que faz a alegria das crianças). Para passar de um cubículo ao outro, ela tem de achar as chaves escondidas no meio da geleca e, para piorar, cada cubículo tem um monte de sapos, rãs e cabras saltitantes — provavelmente achando aquilo tudo tão sem sentido quanto o espectador.

Tudo bem. A Globo pode ter acertado ao colocar no aros episódios de A Vida Como Ela É... dentro do Fantástico, ou ganhado pontos com o teleteatro Sai de Baixo. Mas ainda não descobriu como se dirigir aos adolescentes sem tratá-los como retardados. Basta lembrar o fiasco que foi Radical Chic, apresentado por Maria Paula, ou os quadros do VJ Thunderbird no Fantástico (ambos felizmente retirados da programação). E se Danielle Winitz não cansa de dizer "mandou mal " durante Ponto a Ponto, faz sentido que a Globo tenha batizado seu novo enlatado, a série americana que vai ao ar às 10h40 de domingo, de Aí Galera Mandou mal mesmo...

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 50289