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Nova Consulta

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 16/7/1985
Autor/Repórter:

O QUE PINTA DE NOVO SÃO AS GAFES DA GLOBO

Uma das mais hilárias atrações dos videoclubes cariocas é uma fita intitulada As Gafes da Rede Globo em 84. Ela, na verdade, não mostra todos os tropeções da emissora naquele ano - em apenas 30 minutos de duração - e também se limita ao que aconteceu no âmbito do telejornalismo de São Paulo. De qualquer modo mergulha-se numa Globo surpreendente e menos pomposa ao que a que se vê todo dia. Aqui, o que pinta de novo na tela da Globo é um punhado de besteiras, erros, palavrões e brincadeiras entre jornalistas e entrevistados.

Narrado em forma de telejornal, apresentado inclusive por um dos locutores de São Paulo, Gafes da Globo mostra algumas cenas que chegaram a ir ao ar, pois estavam sendo transmitidas ao vivo. Como naquela manhã em que Ney Gonçalves Dias apresentava com a formalidade habitual o TV Mulher e espinafrava a falta de modos das pessoas que falam alto, fofocam - e pior, onde já se viu!?, conversam com os pés na porta do elevador para impedir que ele prossiga viagem. Nesse momento Ney faz uma encenação do que diz, colocando seus pés na perna da mesa. Esta, então, deslocada de sua firmeza, começa a desabar chão abaixo, no que é acompanhada do outrora posudo Ney. Ele agora está desesperado, tenta segurar a mesa, mas não consegue. Despencam juntos. A cena final é constrangedora: Ney cai de quatro sobre o tampo da mesa, enquanto ao fundo ouve-se o grito chocado da apresentadora do programa, Marília Gabriela: "Neeyyyyy!!!!"

Também foi ao ar aquele inesquecível Jornal da Globo em que Ênio Pesce despede-se de todos com um elegante "boa-noite". Começa a tirar o microfone da lapela e os créditos do jornal escorrem pela tela. Nesse momento, vinda de algum canto do estúdio, pousa, tresloucada e insensível, uma barata no ombro do bem talhado terno de Ênio. Barata voadora, enorme. O locutor olha a barata, assustado, mas ao mesmo tempo lembra-se que está na televisão e resolve encenar que nada está acontecendo de anormal. A barata passeia alegre sua inconseqüência no ombro de Ênio, que de vez em quando lhe dirige olhares entre blasé e súplices para que vá embora. Tudo com muita classe, dentro do padrão de qualidade. O encontro da barata com Ênio dura 30 segundos. Certamente os mais longos da carreira do locutor.

As Gafes da Globo revelam também escorregões pelos quais a emissora não tem qualquer responsabilidade. No seu habitual estilo tatibitate de construir frases, o governador Franco Montoro aparece dando uma entrevista em que, depois de ressuscitar o Ministério da Aviação, informa que seu ocupante é Délio Jardim do Nascimento. Também cabe inteirinho ao Ministro Camilo Pena o desastre de outro trecho impagável. Ele está dando uma entrevista com aquele ar mal-humorado da Velha República, como se prestasse um grande favor ao repórter. Indócil para se ver livre daquilo, Camilo joga uma frase qualquer como resposta ao mesmo tempo em que já vai se virando para fugir de outra pergunta. Nesse momento, Sua Excelência bate espalhatatosamente com seu rosto, em cheio, numa parede que estava no caminho. Chega a fazer barulho a trombada. Se ridículo matasse haveria um gabinete de ministro vago imediatamente em Brasília. Mas Camilo Pena, mesmo com o nariz para sempre amassado, continuou no cargo.

Boa parte da fita, no entanto, mostra os bastidores do jornalismo da Globo, com a repórter Isabela Assunção, por exemplo, tropeçando na dificuldade de se pronunciar Tomaso Busceta sem que disso surja algo pouco televisível. Há um chorrilho de gafes do cotidiano de uma equipe de reportagens, inimagináveis para quem vê os jornais bem editados da estação. Como a repórter que começa a narrar sua matéria: "Estamos aqui na creche Fernão Dias". E logo em seguida pára, duvidosa, perguntado para alguém fora do quadro: "É Fernão Dias mesmo?" Uma profissão difícil, ninguém duvide. Outra repórter escolhe ao acaso um desempregado na fila do INAMPS , oferece-lhe o microfone para que narre seus problemas - e só aí descobre-se que o entrevistado é fanho, absolutamente incompreensível. A repórter ainda tenta algumas perguntas, mas diante dos sons ininteligíveis que lhe vêm como resposta faz o que qualquer um faria diante do quadro absurdo: morre de rir.

Mais adiante a repórter Poly está na quadra da escola de samba Renascença, cobrindo um ensaio. Ela diz o texto da matéria na frente de uma porta-bandeira que evolui exultante. De repente, o pano da bandeira, que já lhe havia roçado a nuca várias vezes, numa gingada mais forte da passista atinge em cheio o rosto de Poly. Esta, magrinha, perde por momentos o equilíbrio, faz uma careta de susto, mas logo se refaz. Está no ar. Na Globo. Numa outra parte da fita é o momento de se exaltar a gracinha que é Poly. O escritor Marcelo Paiva, aproveitando que está sendo entrevistado para uma outra matéria, manda um recado confessando-se apaixonado e saudoso de Poly. É uma Globo em circuito interno e que agora chega em todos os lares.

Tem ainda o capítulo do contra-plano. Na linguagem do telejornalismo é aquele momento em que o entrevistado apenas finge que está dizendo alguma coisa diante do repórter, numa encenação que mais tarde permite uma edição mais rica de imagens. Aqui é focalizado o contraplano que a repórter Isabela Assunção fez com um advogado envolvido no caso do mafioso Tomaso Busceta. A pergunta precisava ser séria, procedente, mas a resposta seria apagada na edição, serviria apenas como o tal contraplano. Em As Gafes da Globo a cena está completa. Assim:

Repórter: - Como foi que o Sr. conseguiu o relaxamento da prisão de Busceta e dos outros presos?

Advogado (ar compenetrado): - Provando que os mafiosos eram todos sócios do Romeu Tuma, que eram assalariados dele e que o juiz também fazia parte da gang. Por isso não poderiam ser presos sozinhos.

Embora não se saiba exatamente como a fita foi produzida e saiu da Globo, ela é muito bem humorada e revela os bastidores, afinal, humanos de uma emissora geralmente criticada por sua artificialidade e frieza. Os repórteres, tensos, desabafam com palavrões, metem-se em situações ridículas brigando pela notícia, mas também gozam as falhas dos cinegrafistas, entrevistam-se mutuamente e brincam exibindo os músculos para a câmera. Um deles, inclusive, vive a glória de ser interrompido numa reportagem num restaurante por um fã de voz trêmula e aquela gesticulação delicada reconhecida longe. O fã gay acaricia o repórter e louva-o:

- Com esses ombros largos, bonitão, você devia estar em todas as reportagens, meu bem.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 5799