PUC-Rio

Voltar

Nova Consulta

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 27/01/1987
Autor/Repórter: Márcia Cezimbra

BREVE NO AR, A TV RIO

Nilson do Amaral Fanini, delegado de Deus, luta contra o diabo e entra na era eletrônica

A luta contra o diabo vai usar armas eletrônicas. No bairro do Estácio, berço do samba e da malandragem - Rua Miguel de Frias, 57 -, a primeira emissora evangélica do país mandará ao ar, a partir de maio, suas mensagens de servidão à ideologia cristã. É a volta da TV Rio, Canal 13, fechada há 10 anos.

O autor da façanha é o pastor Nilson do Amaral Fanini, 55 anos, dono da emissora e líder dos 30 milhões de evangélicos do Brasil (cálculo de sua igreja, a ia Igreja Batista de Niterói). Multiempresário, que controla as 22 empresas de equipamentos agrícolas do grupo Kepler Weber S.A., herdado por sua mulher, Helga Kepler Fanini, ele acha que o corpo é moradia emprestada por Deus, e por isso "não se pode botar gasolina e tocar fogo em casa alugada", como fazem os que bebem cerveja e sacodem o esqueleto no samba. O bom batista expulsa o sambista da igreja. Não é à toa que D. Neuma da Mangueira reclama dos numerosos crentes que estão trocando a quadra pelos apelos evangélicos das igrejas da favela. A população evangélica, segundo Fanini, cresce anualmente quase três vezes mais que a população do Brasil e elegeu, no ano passado, sete deputados federais e seis estaduais no Rio, e quase 40 em todo o pais. É audiência garantida para a emissora comercial que não aceitará anúncios de bebidas, fumo e jogo.

Fanini disse que conseguiu a concessão do canal 13, em dezembro de 1983, porque, antes de entrar no gabinete do então presidente Figueiredo, no Palácio do Planalto, rezou o verso 11, do capítulo 1 do Livro de Neemias (Antigo Testamento): "Ah, senhor, estejam pois atentos os teus ouvidos à oração de teu servo e dá-lhe mercê perante o rei". Assim, Fanini venceu 18 empresas concorrentes - entre elas, os grupos Abril, Maksoud, Rádio Metropolitana, Rádio Capital e Secretaria de Cultura do Estado do Rio. Na época, acusou-se a graça divina de ter recebido uma fundamental ajuda humana, nas pessoas do ex-diretor do Dentel (órgão fiscalizador das concessões) Moldo de Oliveira, eleito suplente do PDS nas eleições de 1982 e dado como um dos sócios da emissora. Fanini nega tal sociedade. De qualquer maneira, o próprio Figueiredo não era um estranho para Fanini. Antes daquelas eleições, em agosto, o ex-presidente compareceu com cinco ministros de estado à festança do sétimo aniversário do programa Reencontro (aos sábados, às 10h, na TVE) para 300 mil evangélicos no Maracanãzinho. Dali saíram muitos votos para Aroldo, e nunca mais o Reencontro foi tão festejado. Da concessão do canal até hoje, a Rádio Ebenezer - razão social da emissora - comprou e patenteou o título caduco da velha TV Rio e investiu 6 milhões de dólares (Cz$ 180 milhões) em sua instalação. Deste total, 2,5 milhões de dólares (75 milhões) foram para a compra de transmissores de microondas e equipamentos Sony, do Japão. Depois de uma luta por um espaço no Sumaré, a torre será montada até o fim do mês, e em maio terminam as reformas do prédio de três andares e 3.500 metros quadrados da Miguel de Frias (o térreo para administração, o segundo para estúdios e o terceiro para diretoria). Só em ar condicionado o pastor diz ter gasto Cz$ 2 milhões 500 mil.

Reencontro e o nome também da entidade de obras sociais e educacionais presidida por Fanini, que congrega as 19 denominações (batistas, assembléias de Deus, metodistas, luteranos etc.) das 3 mil 500 igrejas evangélicas do país. Através de generosas doações, Reencontro conseguiu financiar creches e clínicas em 25 favelas. A emissora, porém, que o pastor quer inaugurar sem dívidas, "fora os financiamentos externos, obrigatórios pelo Banco Central para a importação dos equipamentos", conta, além das doações, com um único sócio, Cláudio Macário, da Cláudio Macário Construções e da empresa Dimac, de exportação e importação.

Na programação dessa emissora exclusivamente carioca -"mas com mesma potência da Globo, que atingirá cidades fronteiriças de Minas Gerais e São Paulo", segundo Fanini - só estão definidos o Clube 700, variedades de uma hora diária, sob o comando do pastor americano Pet Roberton, e uma nova versão do Reencontro, atualmente exibido em 02 estações de televisão e 45 de rádio, que cobram, no total, Cz$ 400 mil mensais pelo aluguel do tempo a Fanini. Em algumas emissoras, como a TVE, o tempo é gratuito, e as despesas de estúdio não passam de Cz$ 10 mil por mês. No momento, Fanini briga com duas emissoras - do Rio Grande do Sul e do Paraná - que querem aumentar de Cz$ 6 mil mensais para Cz$ 10 mil sua meia hora semanal.

O pastor continuará como showman do Reencontro, agora sofisticado por um auditório de 120 lugares e 30 linhas telefônicas para aconselhamento, ao vivo, de desviados, deprimidos ou suicidas em potencial. O jornalismo também terá força total, com quatro horas diárias de noticiários. Para tanto, o pastor já importou nove unidades de reportagens (carro e equipamento), que classifica como "a maior frota jornalística do país". Não faltarão as novelas, livres aqui dos triângulos assanhados ou crises familiares que atraem o público das demais emissoras. Fanini não teme queda de audiência em programas que valorizam a família e justifica sua tese com uma de suas incontáveis metáforas:

- O beija-flor não se atrai apenas por flores?

Ele concorda que a prosperidade afasta o homem de Deus, e que a necessidade das populações carentes das favelas induz a um mergulho espiritual como alternativa para os problemas materiais insolúveis. Mas ressalta que no Japão, embora país desenvolvido, o índice de religiosidade também é grande. E explica, com outra metáfora, como a religiosidade não anula o homem, no sentido de deixá-lo passivo à espera de graças divinas:

- O homem é um trem que caminha sobre dois trilhos, o da vontade humana e o da vontade divina.

Se rejeita um deles, será "uma locomotiva descarrilada". Se tomado ao pé da letra, o exemplo provaria na verdade que a vontade do homem nunca se encontra com a vontade de Deus.

UM PASTOR COMUNICADOR - O ideal do menino Nilson do Amaral Fanini era ser médico do Exército. Nascido a 18 de março de 1932, sob o signo de Peixes, chegou a ingressar na Academia de Agulhas Negras, mas, ao falar, adolescente, à turma de colegas, sentiu "um chamado de Deus" para tarefa bem mais elevada. Largou a escola militar e ingressou no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, onde conheceu sua mulher, Helga, com quem se casou há 23 anos.

Seus avós vieram da Itália e da Suécia e converteram-se no Brasil. A família inteira é batista e, depois de formado em Direito, Fanini e a mulher foram fazer pós-graduação em Teologia nos Estados Unidos. Mas matou o desejo pelo Exército com um curso na Escola Superior de Guerra.

Ele tem o controle acionário da empresa que era de seu sogro, a Kepler e Weber S.A., mas só participa do conselho consultivo. Deixa a direção das filiais em vários estados e da sede carioca para os cunhados. Seu forte é falar ao povo - prega em espanhol, português e inglês, e no ano passado viajou a Moçambique, Angola, Paraguai e até à Polônia. No próximo domingo, participa do Congresso Mundial de Comunicadores, em Washington, nos Estados Unidos.

Acha que o coração do brasileiro "é muito bom", mas procura, segundo ele, instituições religiosas de credibilidade - as evangélicas, por exemplo, não cobram nada por seus serviços. Nada contra as taxas da Igreja Católica; Fanini diz que gosta muito do cardeal Eugênio Sales, arcebispo do Rio de Janeiro:

- Ele também grava o programa dele (A voz do pastor), é muito meu amigo, gosto muito de sua maneira de agir. Temos um relacionamento muito bom com a Igreja Católica.

Voltar

Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 7221