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Nova Consulta

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 08/03/1988
Autor/Repórter: Márcia Cezimbra

EM BUSCA DE UM LUGAR AO SOL

Mais de mil aspirantes ao telejornalismo tentam uma vaga na nova TV Rio

A quadra da escola de samba Estácio de Sã amanheceu ontem fervilhante. Não era, porém, o fogo do samba, que incendiava o corpo de milhares de "pecadores". O que pegava fogo mesmo era o calor queimando mais de mil repórteres, cinegrafistas e estudantes de Comunicação, em disputa por um destino de essência evangélica: 40 vagas no jornalismo da nova e "carioquíssima", embora crente, TV Rio, no ar a partir de 10 de abril. Se Deus quiser. No ano passado, o presidente da emissora, pastor Nilson do Amaral Fanini, ameaçou com processos de disciplina o crente que caísse ali no terreiro do vizinho, no Estácio, berço do samba, reduto da malandragem e agora da evangelização eletrônica. O acordo entre Deus e o diabo saiu fácil, ao menos, à luz do dia: a partir das 9h, as mesinhas dos sambistas recebiam centenas de currículos. A fila quilométrica de candidatos rodeava a quadra desde a madrugada. A estudante Maria Helena Katschabad, 20 anos, chegou às 5h e vomitou, de fome e de sol, antes de se inscrever "sem pretensões salariais" para repórter de TV.

A história de Maria Helena, aliás, traça um perfil da maioria dos candidatos, jovem e pouco exigente. Ela mora em Copacabana, está no sétimo período de Jornalismo na Faculdade da Cidade e tem, como experiência anterior na profissão, dois meses de relações públicas no Ristorante Gramezzines. Ninguém quer saber de dinheiro, só de trabalho e vivência. Este tipo de profissional é perfeito para os sonhos jornalísticos do diretor geral Walter Clark; as "carioquinhas" (unidades móveis de câmeras) vão às ruas com gente nova, animada e sem vícios. Foi o que atraiu a estudante do sétimo período da Hélio Alonso, Lísia Moreira, 21 anos, moradora de Copacabana: "Li no JORNAL DO BRASIL que precisavam de gente com criatividade. Não vim por dinheiro, porque jornalista ganha mesmo mal, mas espero receber um mínimo de CZ$ 10 mil e um máximo de CZ$ 20 mil", disse.

Há profissionais já formados como Vanessa Monteiro, 22 anos, que jamais conseguiram um emprego. Ela terminou Jornalismo em 86 na PUC, mas até hoje só conseguiu um estágio de dois meses numa secretaria de Estado. "Vou tentar ser repórter de vídeo e não faço a menor idéia do salário", comenta. Uma colaboradora da Rede Manchete prefere, por enquanto, o anonimato para que a publicidade em torno de seu nome não atrapalhe seus projetos: "Vão me contratar na Manchete por CZ$ 17 mil, mas antes vou tentar aqui, porque pior do que este salário é impossível", diz. Outro estudante, Heitor Martinez Mello, 20 anos, aluno da UERJ, quer ser editor de imagens, mas vai continuar na independente Insight, onde trabalha há um mês, caso o salário seja inferior a CZ$ 20 mil.

A atriz e jornalista Adriana Estitte, 21 anos, formada pela PUC em 86, quer ser locutora, mas, se não for chamada, vai com seu grupo teatral para o Fitei (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica), em Portugal. O mais "pretensioso" é o cinegrafista Cleber de Almeida Cavalcanti, 21 anos, que tenta um salário maior que os CZ$ 25 mil que recebe da independente produtora Cristal, reforçados por free-lancers até chegar aos CZ$ 40 mil mensais: "Por menos, não dá."

Para quem não sabe quanto a TV Rio vai pagar, o Sindicato dos Jornalistas informa que o piso salarial para repórter ou cinegrafista é de CZ$ 22 mil 600. Surpresa com a multidão de candidatos, a diretora de produção da TV Rio, Maria dos Anjos, já não sabe quando estará pronta a seleção. Os repórteres e locutores serão escolhidos pelo próprio diretor de Jornalismo, o veterano radialista Técio de Lima, e os câmeras, por André Luiz Homem.

Além de Deus, talvez a numerologia possa indicar o sucesso ou fracasso desta nova TV Rio. Ela estréia, oficialmente, dia 26 de março, um múltiplo de 13, com uma grande festa no Maracanã pelo 13° aniversário do programa evangélico Reencontro, lançado no antigo canal 13, quando a TV Rio funcionava no Posto Seis, em Copacabana. O pastor Fanini, líder do Reencontro, quer um espetáculo no estilo da abertura dos jogos olímpicos para inaugurar, apenas formalmente, a emissora que só vai lançar sua programação mesmo em abril. Para a festa, já estão acertados a Banda de Fuzileiros Navais, uma revoada de pombos, danças folclóricas, corais e os principais hits de cantores evangélicos. Tamanha superprodução só tinha acontecido em 1982 quando Fanini levou para o sétimo aniversário do programa Reencontro o Presidente Figueiredo e cinco ministros de Estado. Logo depois, um ex-diretor do Dentel (órgão fiscalizador das concessões de TV), Aroldo de Oliveira, elegeu-se suplente de deputado federal pelo PDS e foi apontado como sócio de Fanini na luta pela concessão do Canal 13. O pastor, porém, diz que foi Deus quem o ajudou a vencer, em 83, 18 empresas que se candidataram à concessão da emissora.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 7829