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Jornal/Revista: O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 16/11/2003
Autor/Repórter: Luiz Carlos Merten

QUANDO O HORROR DA VIDA REAL É MAIOR

Nem enfocando atrocidades ‘Cidade dos Homens’ pode ser acusada de apelativa

Desestimulado pelo Jornalismo da Globo, que achou que não ficaria bem misturar ficção com realidade e influenciou o núcleo que apresenta Cidade dos Homens, o encontro de Laranjinha e Acerola com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva - que deveria ter ocorrido no segundo episódio, Dois para Brasília - terminou-se verificando na segunda-feira, ao vivo e em cores. Douglas Silva, que faz Acerola, imitou o presidente, o clima foi descontraído, mas ocorreu uma coisa curiosa.

Na ficção, o encontro que não houve deixou de ser documentado porque teria havido um problema com a câmera. Foi a solução encontrada para contornar o embargo da emissora. Na realidade, o próprio diretor daquele episódio, o experiente fotógrafo César Charlone, também enfrentou um enguiço com a câmera que, se não impediu totalmente, pelo menos dificultou o registro da invasão do Palácio do Planalto pelos garotos de Cidade dos Homens.

Eles invadiram os lares de milhões de brasileiros, e isso é mais importante. O Buraco Quente, o último da série de cinco programas deste ano, teve média de 31 pontos.Mais importante - todos os cinco episódios tiveram audiência superior a 30 pontos, o que é mais do que a média de 29 pontos da primeira temporada e de 12% a 13% a mais do que Carga Pesada, que era a atração da emissora na mesma faixa horária.

Ou seja - os números apontam para uma consolidação do fenômeno Cidade dos Homens, que se segue ao sucesso de Cidade de Deus nos cinemas. Escrito por George Moura e dirigido por Paulo Morelli, esse quinto episódio já entrou para a história da TV brasileira. O primeiro, O Sábado, sobre o baile funk, dirigido pelo próprio Fernando Meirelles - que fez Cidade de Deus -, foi o melhor e teve 35 pontos de média, com picos de até 38, mas vale recapitular a respeito de O Buraco Quente.

É muito provável que o telespectador já tenha visto na sua telinha: 1) policial corrupto recebendo propina; 2) mulher nua; 3) assassinato a sangue-frio, na verdade, uma execução; e 4) gente fumando maconha. É mais difícil que tenha visto tudo isso num único episódio de ficção de 52 minutos.

Mais, muito mais sintomático, ainda, é que tudo isso, ao mesmo tempo, não pudesse ser considerado apelação nem sensacionalismo e sim, uma tentativa honesta e sincera de refletir sobre a realidade brasileira.

É o que faz a grandeza de Cidade dos Homens. Não se trata de nenhuma tentativa de supervalorização. Fernando Meirelles criou a série de TV, por meio de sua produtora, a O2 Filmes, convencido de que era importante garantir novos espaços para os atores do filme que adaptou do livro de Paulo Lins. Até quem não gosta especialmente de Cidade de Deus reconhece que o trabalho de Kátia Lund (e Fátima Toledo) com os atores é algo excepcional. Meirelles sempre se preocupou com o bem-estar de seus garotos.

Talvez escaldado pelo que ocorreu com Fernando Ramos da Silva, o Pixote do grande filmes de Hector Babenco, ele se preocupa em evitar que o mesmo se repita com os meninos de Cidade de Deus. Os meninos já são adolescentes, tomara que prossigam na carreira e os vejamos virar homens na TV e no cinema.

Mas, independentemente dessas soluções individuais, há o problema social, que não será um diretor de TV e cinema a resolver.

Neste sentido, Cidade dos Homens cumpre um papel ao levar para a cidadania uma discussão necessária sobre a violência, o tráfico de drogas e o porte de armas no Brasil atual. Esta semana, o Brasil inteiro ficou chocado com a brutalidade do crime envolvendo dois adolescentes de classe média de São Paulo. O horror da realidade consegue superar o da ficção.

A morte dos dois, nas circunstâncias em que ocorreu, extrapola a questão imediatamente social.

O crime teve requintes de crueldade que vão muito além do que qualquer latrocínio consegue explicar. Mexe com áreas sombrias da psique e do comportamento humanos. Comparativamente, O Buraco Quente é até light, mas os dois episódios, o real e o fictício, não deixam de estar conectados. Em O Buraco Quente, um rapaz quer abandonar o tráfico - e Laranjinha e Acerola o ajudam -, e outro é executado. Ninguém é mentalmente perturbado ou incapaz e a questão das armas ilegais não é escamoteada. Os problemas estão batendo à nossa porta. O Brasil não pode virar uma sociedade como a americana, que só consegue resolver seus problemas por meio da violência.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 92341