PUC-Rio

Voltar

Nova Consulta

Jornal/Revista: Última Hora
Data de Publicação: 23/06/1989
Autor/Repórter: Linda Monteiro

UM ANO DE TROPEÇOS

Comemorando este mês seu primeiro aniversário, a TV Rio ainda se mantém de pé, apesar das dificuldades

Quando entrou no ar, em 19 de junho do ano passado, a TV Rio, caçulinha das emissoras cariocas, se propunha a ser uma opção para o público da Cidade Maravilhosa, oferecendo uma programação alternativa e eminentemente local. "Vamos devolver ao carioca aquilo que lhe pertence", prometia, na época, seu principal acionista, o empresário e pastor Nilson Fanini. Mas neste seu primeiro aniversário, a "Carioquíssima", a julgar pelos índices do Ibope, o programa de maior audiência atualmente fica torno de 6%, não deve ter muito o que comemorar, a não ser o fato de ter-se mantido de pé, apesar dos infortúnios e dificuldades pelos quais passou neste espaço de tempo. Hoje, pelo menos, ela já pode começar a pensar em ser uma opção de fato para o carioca, já que há dois meses, com a mudança das válvulas dos transmissores, o sinal da emissora está chegando melhor a alguns bairros onde antes não alcançava. Na época em que foi "inaugurada", a TV Rio praticamente inexistia em vários cantos da cidade. ''Eu fui contra a inauguração naquela data. Como se podia pensar em vender uma emissora ausente em 70% da cidade", disparou Walter Clark quando rompeu com a TV Rio, deixando a direção-geral da emissora um mês depois de ela ter dado seus primeiros e tropeçados passos.

Contratado para elaborar a programação do 13, Clark, considerado um dos papas da televisão brasileira, era só pelo seu nome uma garantia de que poderia estar nascendo uma emissora de qualidade e bom gosto, mesmo que modesta. Com a sua saída, começavam a diminuir as esperanças do público em relação à "nova opção". Na época, Walter Clark alegou vários motivos para a ruptura com a emissora, onde recebia um salário de 1.190 OTNs. Um deles era o fato de Fanini ter convocado uma reunião de alto comando sem a sua presença e à sua revelia. Outro era a falta de infra-estrutura e condições técnicas para a inauguração, que, na sua opinião, era precipitada. "A TV Rio é um navio naufragando'', diria ele, nos idos de julho de 88.

Mas o navio não naufragou. Continuou navegando, já naquele mesmo mês com o auxílio do Grupo Múcio Athayde de Comunicação, que comprou as ações que até então pertenciam a Cláudio Macário, sócio de Fanini no empreendimento. No lugar de Walter, assumiria José Abraão, que se mantém até hoje na direção. Neste ajuste de comandos e cargos, alguns programas sairiam do ar, muitos deles porque feitos por pessoas ligadas a Walter Clark, que se demitiram com ele. "Rio nove e meia", ''Sob a luz do meu bairro'', "Grito dos independentes", ''Domingo voador'', e ''Os grandes carusos'' foram alguns dos programas de vida curta na emissora, que logo também deixou de contar com nomes como João Loredo, Perfeito Fortuna, Chico Caruso e Helena Brandão (ex-Darlene Glória) em seu cast. Alguns apresentadores, entretanto, permanecem até hoje, como as radiofônicas Adriana Rimmer (com o "Som' e energia") e Selma Vieira (''Rio mulher") e Afonso Soares (comandando o programa policial "Rio cidade alerta"). E gente nova também foi se chegando, como o veterano comediante Ankito, as ninfetas Ana Paula e Luise (ex-paquitas da Xuxa), o ex-global Berto Filho (hoje pilotando o "Política nacional") e o popular Raul Gil (no "Sábado especial", uma versão humilde e simplória do "Domingão do Faustão''). Hoje, no prédio, da Rua Miguel de Frias, no Estácio, quase tudo ainda tem jeito de começo, de adaptação. "O primeiro ano é sempre difícil, ainda mais nesta fase difícil pela qual passa o País. Na realidade, uma emissora de TV precisa de dois a três anos de funcionamento para se implantar de verdade. Mas já caminhamos muito", avalia Fanini, revelando que atualmente o transmissor opera com 16.000 kw (na época da inauguração transmitia só com 3.000). Mas mesmo assim a imagem da TV Rio ainda não chega bem a alguns lugares, como na Baixada Fluminense e em determinados pontos da Zona Sul. "Mas depois da mudança desta válvula, as reclamações dos telespectadores, em relação à imagem, que eram muitas, diminuíram bastante. Além disso, no dia 19 começou a funcionar um retransmissor no Morro do Mendanha, em Campo Grande, o que permite que o sinal chegue muito. bem na Zona Oeste. E dentro de seis meses, aproximadamente, deveremos instalar um novo transmissor e uma nova antena, o que vai melhor muito a imagem da TV Rio na cidade", revela o diretor de Produção da emissora, Roberto Jorge, desde agosto na casa.

É bem verdade que a programação atual da TV Rio fica muito a dever aos planos bonitos e bem intencionados do mestre Walter Clark Ele chegou a pensar em 18 horas de programação ao vivo, uma carga que hoje foi reduzida a nove horas e meia. Os melhores programas se perderam e o esquema de módulos radiais proposto por Clark idem. "Mas aproveitamos muitas idéias dele, que é um excelente profissional. Ele apenas fez uma opção de voltar para São Paulo. Rescindimos seu contrato e lhe foi pago o que era de direito. Somos amigos até hoje", garante o pastor, lembrando que agora os tempos são outros e que voltar ao assunto seria inútil. Daquela época ficaram os sonhos da tal opção, as mesmas plaquetas salpicadas nos corredores da emissora, como há um ano, com os dizeres "O corpo é o templo do Espírito Santo. Não beba e fuja do álcool" e uma grande vontade de acertar.

A EXPERIÊNCIA FRACASSADA - "Uma das grandes dificuldades de qualquer empresa, as fases de implantação, e adaptação é colocar as pessoas certas nos lugares certos", sentenciou o pastor Nilson Fanini, quando o nome de Walter Clark passou a fazer parte da conversa. Hoje em dia, o pai do projeto que não chegou a se concretizar, vive em São Paulo, dividindo seu tempo entre as atividades de assessor da Bolsa de Valores e de escritor. Cheio de histórias para contar, Clark prepara sua biografia, que deverá ser lançada no ano que vem.

Certamente um livro onde a TV Rio (se merecer ser mencionada) será tratada apenas como um fiasco. "A TV Rio não tem aniversário para comemorar porque nem começou ainda", avalia Clark, deixando claro que seu lugar certo nunca seria numa emissora que, em seu ver, não passou de brincadeira. "O pastor Fanini tinha uma concessão na mão e não queria perdê-la, apenas isso. Mas não sabia nada de TV e, o que é pior, podou quem sabia fazer. Saí de lá decepcionado com ele e nunca mais o vi. Fiquei muito chateado por ter comprometido o meu nome e por ter envolvido profissionais sérios naquilo", diz.

Dentre as pessoas convidadas pelo diretor para abraçar o projeto estava Gilberto Loureiro, então diretor artístico, que também se demitiu com toda a equipe. "Não deixou de ser uma experiência interessante ter a chance de participar da implantação de uma TV. Mas não posso negar que fiquei traumatizado com os problemas que iam aparecendo. Tudo ficava emperrrado pela falta de material, de infra-estrutura", relembra Loureiro. Pilotando o Departamento de Jornalismo há um ano está Tércio de Lima. "A precariedade se estendia a todos os setores. O meu departamento era o menos carente de todos. Aos trancos e barrancos consegui fazê-lo funcionar com 70% de seu ideal. Não tínhamos o que nos foi prometido pelo pastor, que nos pressionava de todo o jeito para que a emissora, entrasse no ar, o que acabou acontecendo sem condição nenhuma. O projeto do Clark era genial, mas não nos deram condições nem tempo de levá-lo a efeito", conta o jornalista, revelando que, na época da inauguração, Clark foi voto vencido em uma reunião, onde a equipe decidia se a TV deveria ou não ir para o ar na data estabelecida. "Clark achava que não era a hora, mas acatou a decisão da maioria. Hoje sinto que tive minha parcela de culpa naquela precipitação", lamenta Tércio, acrescentando que, entretanto, não considera a TV Rio um fracasso. "Se fosse um fracasso não estaria no ar até hoje. É claro que ela está muito longe do que poderia ser, mas tomara que conserte", torce.

Elogiado pelos seus companheiros de trabalho, o projeto de Clark para a TV Rio, porém, acabou recebendo críticas na época de sua saída da emissora. "Alguns compartilhavam da opinião do pastor de que o projeto, se fosse seguido à risca, era inviável economicamente para uma emissora iniciante. Homem de fé, ele queria um milagre", diz Clark que, desde que de lá saiu, nunca mais assistiu à TV Rio. Não porque sua mágoa tenha chegado ao ponto de não lhe permitir falar do assunto ou lembrar dele. "Cheguei a tentar sintonizá-la em duas vezes que estive no Rio, mas ela não pegava", justifica. Da experiência, Walter diz guardar de positivo apenas a sua temporária reconciliação com a Cidade Maravilhosa e a sensação de que, aos 50 anos de idade, ainda poderia participar de um projeto com o mesmo pique que tinha na casa dos 20, quando assistiu aos primeiros passos da hoje todo-poderosa TV Globo. "E, acima de tudo, o fiasco da TV Rio me deu a consciência da incompetência e irresponsabilidade com que a comunicação é tratada no País", lamenta.

Voltar

Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 9550