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Jornal/Revista: O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 08/07/2004
Autor/Repórter: Leila Reis

'HÁ UMA DITADURA DA BELEZA E DA JUVENTUDE NA TV'

Leôncio na primeira Escrava Isaura, Rubens de Falco volta à cena na mesma história

Terça-feira, na cidade de Rio Claro, Rubens de Falco mergulha de cabeça na história de Escrava Isaura, que está sendo regravada pela Record com direção de Herval Rossano. Na nova versão da novela que encantou o mundo - e lidera o ranking das mais exportadas pela Globo - Rubens fará o papel do Comendador Almeida, pai do vilão Leôncio (que interpretou há 28 anos). Com mais 30 novelas, muitos filmes e espetáculos no currículo, o ator está animado com a perspectiva de voltar à trama adaptada do romance de Bernardo Guimarães. Nesta entrevista, Rubens, de 72 anos, diz que o mais importante é estar trabalhando e lamenta a escassez de bons personagens para atores "que sustentam as novelas".Estado - É bom voltar a fazer 'Escrava Isaura'?

Rubens de Falco - É fantástico voltar como pai do protagonista que fiz há 28 anos. Essa volta é fruto de uma grande amizade profissional com Herval Rossano. Ele me disse que eu fui a primeira pessoa em quem pensou quando decidiu fazer a novela. Que bom que a vida me deu esta oportunidade.

Estado - 'Escrava Isaura' é a sua melhor novela?

Rubens - Não, é a que fez mais sucesso. As mais marcantes foram em O Grito (1975), Os Imigrantes (81), o Drácula (Um Homem Muito Especial, na Bandeirantes, em 80), e A Sucessora (78).

Estado - Até onde 'Escrava' levou você?

Rubens - À Polônia, Tchecoslováquia. Só não fui à China porque estava trabalhando.

Estado - A que você atribui o tremendo sucesso da novela?

Rubens - O tema liberdade é universal, mas nos anos 70 tinha grande apelo aqui e no Leste Europeu. Lucélia Santos era uma menina de 17 anos, mas era de uma verdade muito grande. Eu tinha cara de 25, mas tinha 45 e tive que lutar muito com a Lucélia. O embate foi ótimo porque houve uma sintonia incrível entre o vilão e a mocinha.

Estado - Quem será Isaura?

Rubens - Não tenho idéia e não quero saber. Como tenho na cabeça a primeira versão, quero entrar limpo em cena, sem expectativa alguma. Vou trabalhar como um desgraçado até o capítulo 50, quando meu personagem morre para dar vez ao Leôncio.

Estado - Há quanto tempo você está fora da TV?

Rubens - Faz uns seis anos porque tudo que veio a mim não me interessou. Quando estamos em idade avançada, acho que temos o direito de escolher.

Estado - A idade pesa?

Rubens - Quando estou no palco sinto a mesma energia que tinha há 50 anos. Idade pesa para quem está com a cabeça ruim.

Estado - O que fez no período em que esteve fora da TV?

Rubens - Fiz teatro ou fiquei em casa. Há 10 anos viajo com A Lírica, de Cecília Meireles, espetáculo em que também trabalham Maria Fernanda e Luiz Fernando Galon, filha e neto de Cecília. Agora estou em cartaz no Teatro dos Arcos (Bela Vista) com a peça gay Galeria Metrópole, escrita por Mário Viana.

Estado - Como você está se preparando para voltar?

Rubens - Estou embranquecendo o cabelo, não vou mais pintar. O resto está por conta do meu talento.

Estado - A TV trata bem os veteranos?

Rubens - Comecei no TBC em 1951. Cheguei na Globo em 1966, para fazer par com a Nathalia Timberg na novela A Rainha Louca. Acho que gente como ela e eu voltamos quando a TV precisa de talento. Sem atores experientes, a novela não se segura. E o que se vê hoje são muitos corpos e rostos bonitos e mais nada.

Estado - Mas não foi sempre assim? Atores experientes e novatos em cena?

Rubens - A diferença é que a renovação era feita com gente que vinha do teatro e que, portanto, sabia representar. Existe hoje uma ditadura da beleza e da juventude. Sobra lugar para as carinhas bonitas e faltam bons personagens para os atores tarimbados.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 99367