PUC-Rio

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 16/09/1995
Autor/Repórter:

O ADEUS AO COMEDIANTE (1923-1995)

Morreu ontem, de insuficiência respiratória, Lírio Mário da Costa, o Costinha, 72 anos, no Hospital no Rio. O comediante foi internado no último dia 4, com falta de ar, e esteve sob cuidados médicos no Centro de Tratamento Intensivo, onde faleceu, às 5h de ontem. Há quatro as seu médico particular, Alcino Soares, diagnosticou enfisema pulmonar.

"Costinha nasceu em 1923, no bairro carioca de Vila Isabel. Seu pai abandonou a família quando Lírio tinha 13 anos, não sem antes ensinar ao filho os segredos da profissão de palhaço. Sem o pai, Costinha tinha começou a trabalhar e, por isso, estudou apenas até o terceiro ano ginasial. Sem abandonar o picadeiro, foi boy, garçom de botequim e funcionário da loteria federal.

Aos 19 anos, empregado como faxineiro na Rádio Tamoio, divertia os colegas imitando homossexuais. A oportunidade que mudou sua vida surgiu quando passou no teste para um papel com estas características no filme Anjo do lobo. Continuou trabalhando até se estabelecer como ator de teatro de revista. Atuava em um cabaré da Rua do Riachuelo, quando foi convidado para estrelar um espetáculo em São Paulo, em 1951, já com o nome artístico de Costinha.

Nos anos seguintes, seu nome era destacado nos letreiros das casas de show da praça Tiradentes. A consagração chegou com a televisão. Trabalhando na TV Excelsior, no final dos anos 60, Costinha tornou-se um dos mais populares cômicos do país, com suas piadas e imitações caricatas de homossexual, que também fizeram com que seu trabalho fosse censurado em diversas ocasiões.

Costinha, ao longo de mais de 50 anos de carreira, fez quase 20 filmes como O libertino, 007, Carnaval barra limpa e Sai de baixo. O humor dos palcos contrastou com tragédias em sua vida pessoal. Só reencontrou seu pai quando tinha 40 anos, e perdeu uma filha, em 1971. Até o ano passado, Costinha podia ser visto na televisão interpretando o personagem Seu Mazarito, sempre contando piadas com os trejeitos efeminados que o projetaram.

O presidente do Sindicato dos Artistas, Stepan Nercessian, disse ontem que não conseguia acreditar na morte do comediante: um homem bem-humorado, carinhoso com o público e que "até em fila de banco, onde ia receber seu salário, fazia todos rirem". Jô Soares soube da notícia em São Paulo e, por telefone, disse que' Costinha foi "um marco na história do humor brasileiro". Acrescentou que o colega "deixou um grande ensinamento: independentemente do tipo de humor que se fato, é preciso preservar a liberdade e a irreverência." Jô destacou a generosidade de Costinha, que teve quatro filhas com sua mulher, Irany Pereira da Costa, e ainda adotou mais três crianças.

Esteve presente ao velório, no Cemitério São João Batista, Jorge Murad, autor de dezenas de textos para teatro de revista. Ao prestar sua homenagem a Costinha, Murad lembrou que escreveu peças na fase áurea do comediante, na década de 70, incluindo sucessos como Costinha na intimidade, Veludo, costureiro das dondocas e Entrando na abertura. Murad, que lançou na vida artística comediantes como Silvino Neto, afirmou que Costinha foi "um verdadeiro fenômeno, além de grande amigo".

As ex-vedetes do teatro de revista Virgínia Lane e Ester Tarcitano também estiveram no cemitério. Ester, que está morando em Las Vegas e é disc-jóquei dê um programa de rádio com músicas brasileiras, recordou a época em que foi Miss Objetiva da TV Tupi, e conheceu Costinha. "Trabalhamos nos teatros São Jorge e Rival. Ele era o maior cômico da atualidade. Quando chegava ao teatro, todos começavam a rir, só de olhar para ele. Perguntava então: por que vocês estão rindo? Ainda nem comecei a falar". A atriz Zezé Macedo contou que conheceu Costinha quando ele era contra-regra da Rádio Tamoio e ela secretária. "Um dia, o diretor de rádio-teatro Luís Quirino nos chamou para interpretarmos papéis trágicos nas Histórias das Mil e Uma Noites, e não paramos mais de contracenar".

Também compareceram ao enterro colegas da fase em que Costinha atuou na televisão, entre eles os comediantes Lúcio Mauro, Tutuca, Iran Lima, David Pinheiro - o Sambarilove - e Paulo Cintura. O corpo de Costinha foi sepultado às 17h e seus amigos se despediram do comediante com palmas.

Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 29541