PUC-Rio

Jornal/Revista: O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 21/12/1998
Autor/Repórter: Sônia Apolinário

AGUINALDO SILVA ESTÁ DE VOLTA COM NOVELA

Autor ainda faz mistério sobre a trama, que tem estréia marcada para o dia 18

RIO - Em plenas férias de janeiro, a Rede Globo vai estrear, no dia 18, sua próxima novela das 20 horas. Caberá a Aguinaldo Silva a tarefa de manter as pessoas, diante da TV, e garantir a média de 50 pontos de audiência desejada pela direção da emissora.

O autor sabe que recebeu uma missão bastante difícil. Assim, optou por uma trama de suspense para tentar manter o público cativo na sua trama. Suspense que faz parte do processo de criação. Os atores não receberam a sinopse da história que tem o título ainda provisório de Suave Curare. No caso de Glória Pires, ela quase não recebeu informação sobre a própria personagem, uma das protagonistas, junto com José Wilker e Patrícia França.

Sobre a trama Aguinaldo Silva disse que uma cláusula contratual o impede de falar qualquer coisa a respeito. Se o título for mantido, o dicionário ajuda a dar uma pista do que vem por aí. Curare: palavra de origem tupi amazonense - veneno muito violento, de ação paralisante, vermelho-escuro, de aspecto resinoso, solúvel na água, extraído da casca de certos cipós e com o qual tribos indígenas ervam suas flechas.

É com o auxílio de Angela Carneiro, Maria Helena Nascimento, Felipe Miguez e Fernando Rebello que Aguinaldo Silva escreve a história que vai tentar paralisar o País, sob direção de Daniel Filho e Ricardo Waddington. Em entrevista ao Estado, o autor dá algumas pistas sobre seu novo trabalho.

Estado - Quando terminou A Indomada, você declarou que essa seria sua última novela. O que aconteceu?

Aguinaldo Silva - Meu trabalho é esse. Se eu não escrevesse, viraria um dos vagabundos a que o presidente Fernando Henrique se referiu. Além disso, recebi uma bela proposta da Globo, tanto em termos de dinheiro quanto de projeto. Realmente, não era a minha vez de fazer novela e a modéstia me impede de dizer o que disseram para mim para me convencer.

Estado - Foram muitos elogios?

Silva - Foram, mas era só para me convencerem, mesmo (risos).

Estado - Desta vez, você vai escrever uma novela urbana. Por que também essa mudança?

Silva - Desde a época de A Indomada, já estava querendo mudar. Cheguei a apresentar uma proposta de novela urbana, naquela época, mas o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, na época vice-presidente de Operações) optou por fazer uma rural. Na época, alegou que ele tinha pesquisas que indicavam que as pessoas não queriam novelas naturalistas.

Estado - A novela urbana está mesmo fadada a ser naturalista?

Silva - Pois é. Não sei por que tem de ser assim. Há novelas tão naturalistas que até mostram criança abandonada. Ficam parecendo um Globo Repórter. Novela é folhetim, é ficção desvairada. É disso que gosto e sei fazer.

Estado - Como fazer ficção desvairada em novela urbana, que tem local e tempos definidos?

Silva - Minha trama principal é realista e não naturalista. Tempero isso com as tramas paralelas, em que ponho um pouco de realismo mágico.

Estado - Você poderia dar um exemplo?

Silva - Eu estou proibido, por contrato, de falar sobre a trama da novela. O que posso dar como exemplo é o personagem que o Diogo Vilela vai fazer, o guru Ualber. Ele descobre que consegue levitar e, para chegar a isso, fará pequenas coisas mágicas. É claro que, sendo uma novela minha, tem muito humor.

Estado - É verdade que se trata de uma história de suspense e mistério?

Silva - É uma trama de suspense, mas não é policial, com assassinatos, essas coisas. Para garantir o suspense, a cada 30 capítulos, a história dá uma virada.

Estado - Essa estratégia é para evitar a divulgação da trama pela imprensa?

Silva - Não tem esse objetivo, mas também vai evitar que se fale tanto da história, sim. Não sei por que as novelas têm de ser tão devassadas. As viradas vão acontecer porque cada mistério remete a outro. Foi assim que a história me veio.

Estado - É verdade que, para manter o mistério, nem os atores sabem exatamente que personagens estão fazendo?

Silva - Não é bem assim. Os atores realmente não receberam a sinopse da história. O diretor Daniel Filho conversou com cada um deles para dar informações sobre os personagens, mas não contou nada sobre a história. Pelo menos, um certo suspense será mantido.

Estado - Isso não vai dificultar a atuação dos atores?

Silva - Não. Como tem viradas, um personagem que parece ser uma coisa, depois se mostrará diferente. Se o ator sabe que não é aquilo, ele não vai ser tão sincero. Para compensar, os atores foram ensaiadíssimos. Cada um leu peças cujos personagens têm alguma relação com o seu. Por exemplo, a Patrícia França, para fazer sua advogada Clarice, estudou Antígona. O José Wilker (que faz o protagonista Waldomiro) e a Irene Ravache (que faz a mulher dele, Eleonor) estudaram A Morte do Caixeiro Viajante. Veja bem, não é que os personagens sejam inspirados nessas peças. Mas eles têm forças semelhantes.

Estado - Qual é a peça que Glória Pires, a protagonista feminina, estudou?

Silva - Nenhuma. Ela faz a personagem mais misteriosa de todas e, por isso, nem ensaiar ela pôde. Glória faz uma pessoa confusa. Tenho certeza de que ela vai fazer muito bem.

Estado - Quantos personagens tem a nova novela?

Silva - Reduzi bastante e fiquei com 29. As novelas estavam tornando-se jumbos abarrotados. Eu vinha sentindo um inchaço nas minhas novelas, principalmente em Fera Ferida. Ficava muita gente sem ter o que fazer. A partir daí, vim reduzindo os personagens e, agora, acho que cheguei a um bom número. Todos os personagens têm função.

Estado - Você costuma conversar com os atores, atender a pedidos?

Silva - Não. Há um intermediário entre o ator e o autor que é o diretor. O diretor é quem convive com o ator e é quem deve ouvi-lo. Eu gosto de escrever para ver o ator brilhar. Não quero o brilho para mim.

Estado - Uma história de suspense depende de uma trama muito amarrada para dar certo. Novela é uma obra aberta que, muitas vezes, muda em razão de pesquisas. Dá para ter suspense em uma história em que o público pode interferir?

Silva - Nunca mexi em um texto meu por causa de retorno do público. Não quero parecer pedante, mas, em todas as minhas novelas, fazem uma pesquisa no primeiro mês, todo mundo gosta de tudo, então, não fazem mais.

Estado - Você começou na TV fazendo histórias policiais (Plantão de Polícia e Bandidos da Falange). Como se tornou o "rei" do realismo mágico?

Silva - Não sei. Sou nordestino e sempre ouvi muitas histórias. Então, passei a usá-las. Por exemplo, aquela história da mulher de branco (Pedra sobre Pedra). Eu vi a mulher de branco.

Estado - Quando?

Silva - Eu era garoto e vi na minha cidade, Carpina, em Pernambuco. É verdade. Lembra do homem-lua? Eu também o conheci. Quando ele nasceu, a mãe dele o ofereceu como afilhado da lua, mas, depois, deu para outra pessoa batizar. Na vida real, ele tinha uma característica que não usei na novela. Ele era casado, tinha filhos e era o melhor bordadeiro da região. Agora, imagina se eu ponho isso na novela.

Estado - A novela vai estrear em janeiro, em plenas férias. O que você acha disso?

Silva - Tentei desesperadamente que a novela entrasse depois do carnaval. Mas isso iria sacrificar demais o Silvio de Abreu, que teria de esticar Torre de Babel. Por isso, antecipei para o capítulo 30 a primeira virada, que seria, incialmente, no capítulo 40. Na primeira segunda-feira depois do carnaval, a novela vai praticamente estar recomeçando.

Estado - Com a novela, como ficou o livro que você estava escrevendo?

Silva - Nem cheguei a começar a escrever. Ficou parado na fase da pesquisa. É um romance policial que se passa no Rio de 1904. É sobre uma série de crimes durante as reformas promovidas pelo Pereira Passos. Minha tese é de que toda a reurbanização foi feita porque, na verdade, estavam procurando um tesouro escondido pelos jesuítas. Eu gosto muito de escrever histórias policiais porque, no Brasil, esse gênero é mal escrito. Eu gosto de fazer tramas bem amarradinhas.

Estado - Você ia escrever um roteiro de cinema para o Paulo Ubiratan. Como ficou o projeto depois da morte do diretor?

Silva - Acabou. Sem o Paulo, não faz sentido.

Estado - Você não tem outros planos para cinema?

Silva - Não. Cinema paga muito mal, dá prejuízo, é complicado. A TV é mais profissional.

Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 42820