'AS CARTAS DA NOVELA DAS OITO' do século XIX
QUALIFICAÇÃO DO UNIVERSO DOS DADOS PRIMÁRIOS
Vista a validade das conclusões de uma pesquisa estar, entre outras questões metodológicas, diretamente condicionada à qualidade da coleta dos dados primários, abordarei, em primeiro lugar, tais condições do projeto Cartas da novela das oito – século XIX.
1.1. INFORMAÇÕES PRELIMINARES
Por considerar de máxima importância conhecer a audiência televisiva para o entendimento do fenômeno da televisão brasileira, procurei ter acesso a cartas enviadas pelos telespectadores a artistas da "novela das oito". Em virtude da característica desta novela na época de sua exibição, a saber: a mediação de momentos políticos da conjuntura brasileira, parti do pressuposto de que tais cartas pudessem revelar algo do "estado de espírito" dos telespectadores.
Ao tratar, em sala de aula, de questões relativas à programação noturna da televisão brasileira, mencionava a importância do estudo dessas correspondências para o aprofundamento do conhecimento sobre a audiência televisiva. Numa dessas ocasiões, uma estudante se prontificou a intermediar um contato com a então Diretora do Departamento de Elenco da Rede Globo de Televisão, sua parenta, senhora Maria Augusta Mattos (Dona Guta), visando estudos das citadas cartas.
Efetuado o contato, a resposta foi positiva, restando como condição "sine qua non": que não fossem mencionados os nomes próprios dos artistas e dos personagens nem os nomes das novelas e, eventualmente, minisséries.
Antes da então nova novela das oito entrar no ar, tive vários encontros com Dona Guta; apresentando-me aos artistas – por acaso presentes no Departamento de Elenco – que, por sua vez, prometeram total colaboração. Alguns parabenizaram-me pela iniciativa, outros anteciparam informações sobre o conteúdo da maioria das correspondências.
Sempre preocupado com o controle do universo da pesquisa, procurei explicitar as exigências acadêmicas em relação a este universo. Tal preocupação, porém, não teria fundamento, pois me esperava total colaboração.
1.2. UNIVERSO DA PESQUISA
Ao entrar no ar, a novela teve, na imprensa, a habitual repercussão. Por decisão da Dona Guta, que alegou a necessidade dos artistas terem o mínimo possível de preocupações para assim preservar seu exercício profissional, o acesso às cartas (dados primários da pesquisa) sofreu a intermediação de uma terceira pessoa, a saber, um funcionário do Departamento de Elenco. Isto resultou na total ausência de controle do universo da pesquisa, ou seja, a impossibilidade de estabelecer critérios que garantissem a aleatoriedade na seleção das correspondências, algo metodologicamente indispensável para a validade das conclusões, sem mencionar a eventual ocorrência de censura interna por ocasião da seleção das mesmas.
Embora os artistas do elenco da novela das oito tivessem concordado com a proposta, o fluxo destas desmentia essa colaboração, como se pode deduzir dos dados contidos no quadro anexo. Até mesmo o envio de uma carta aos artistas, um mês após ter entrado no ar a novela das oito, explicando a necessidade acadêmica do controle do universo da pesquisa, não alterou esse fluxo.
A colaboração dos artistas do elenco da novela das oito pode ser caracterizada como:
- parcial: fluxo contínuo de razoável quantidade de cartas no decorrer da transmissão da novela;
- acidental: supõe três tipos de fluxo:
a) irregular, com transferência de grande quantidade de cartas, por ocasião de uma entrevista;
b) eventual, com cartas cedidas no decorrer da transmissão da novela;
c) algumas cartas cedidas acidentalmente após o término da novela;
- interrompida: no início da coleta de dados, a colaboração do artista foi interrompida, por motivos desconhecidos, podendo ser o fluxo posteriormente retomado, embora esporadicamente;
- negada: de duas formas:
a) embora confirmada a colaboração, pessoalmente ou em entrevista, somente poucas cartas são transferidas;
b) nenhuma carta transferida;
- selecionada: o artista cede cartas abertas, enviadas por um determinado remetente.
Em certo momento, ocorreu uma modificação significativa no fluxo das cartas, devido à ausência tanto da Diretora quanto da pessoa que intermediava a transferência das mesmas.
A partir do dia 17 de junho, tornou-se possível o controle da seleção que compõem o universo da pesquisa, em virtude de uma autorização para recolher-se as correspondências, pessoalmente, uma vez por semana, no Departamento de Elenco.
O Quadro anexo revela alterações no fluxo, seja na quantidade, seja na origem (cartas de outras novelas).
Tornou-se possível verificar a chegada do malote ao Departamento às terças, quartas, quintas e sextas-feiras, e escolheu-se a terça-feira como o dia mais indicado para a coleta, partindo-se do pressuposto de que a maioria delas era escrita nos fins de semana. Na fase de levantamento dos dados primários, entretanto, esse pressuposto não se confirmou, como evidenciam as exceções a esta data, a saber, os dias 4 de setembro, 18 de outubro, 22 de novembro e 6 de dezembro, nos quais a oscilação da quantidade recebida foi insignificante em relação àquelas recolhidas nas terças-feiras.
A regularidade da coleta dos dados primários, entretanto, não garantia o controle sobre a seleção, ou seja, sobre a interferência externa, algo incompatível com o princípio da aleatoriedade. Várias ocorrências, entretanto, permitem comprovar a não-interferência, embora a oscilação da quantidade de cartas transferidas, cada semana, continuasse considerável.
Visto as conclusões de uma pesquisa qualitativa obterem sua validade dentro das fronteiras que marcam o universo da pesquisa, descreverei as três mais significativas ocorrências que comprovam com certeza que, a partir de 17 de julho, houve total ausência de um controle externo.
. 1 - No dia 17 de julho, um funcionário da emissora perguntou se as cartas podiam estar "misturadas". Mesmo sem ter entendido o real significado do termo "misturadas", respondeu-se afirmativamente. A partir daquela data, correspondências dirigidas a artistas de outras novelas e minisséries e, mesmo, a autores e diretores, começaram a ser transferidas.
. 2 - Noutra oportunidade, pode se verificar, em parte, o critério de seleção adotado pelo funcionário na coleta dos dados primários. Começou-se a receber novamente, em número razoável, cartas do ator que, por motivos não sabidos, tinha se recusado a repassá-las. Por ser seu personagem um dos centrais na trama da novela, perguntou-se, no 21 de agosto, se haveriam ainda cartas para este ator. O funcionário olhou para o respectivo escaninho e disse: "Não, na semana passada ele reclamou porque já tinham poucas". A informação revela que o funcionário selecionava a quantidade de cartas conforme a quantidade encontrada nos escaninhos dos atores, ou seja, os atores mais contemplados pelos fãs forneciam mais cartas; caso contrário, nenhuma carta era repassada. Este fato evidencia o critério adotado na coleta dos dados primários: este se caracteriza pela proporcionalidade em relação ao número de cartas recebidas por um determinado ator, no decorrer de alguns dias. Caso houvessem, por qualquer motivo, poucas cartas para os "astros" e "estrelas" globais, o funcionário transferia cartas de artistas que estavam "fora do ar". Assim se esclarece a oscilação na quantidade de cartas entregues semanalmente.
. 3 - O terceiro fato ocorreu em 22 de novembro. Ao apresentar-me no Departamento, o funcionário abriu, em minha presença, o malote recém-chegado, selecionou as cartas, num espaço de tempo de menos de 30 segundos, e repassou-me 143 das aproximadamente 160 cartas. Não pude verificar o critério de seleção adotado; o pouco tempo gasto na seleção, entretanto, permite concluir que a aleatoriedade da seleção dos dados primários constituiu-se um elemento habitual.
Se houvesse ainda dúvidas quanto à validade do método adotado pelo funcionário do Departamento na coleta dos dados primários, em relação à garantia da aleatoriedade destes, o fato de aproximadamente 99% das cartas estarem fechadas quando recebidas eliminou qualquer incerteza: como poderia o Departamento de Elenco controlar o conteúdo de cartas fechadas?
Entretanto, não se pode descartar um possível controle por parte de alguns artistas do elenco da novela das oito.
Uma reportagem publicada com um pouco mais de um ano após a exibição da novela em pauta, no jornal "O Globo", comprova a possibilidade dessa afirmação. Conforme a reportagem, artistas considerados "ricos" pelo senso comum recebem uma quantidade considerável de cartas com pedidos de ajuda material. Contudo, entre as aproximadamente 3.000 cartas, poucas podem ser assim classificadas. Por outro lado, esse controle não afeta, em termos metodológicos, a qualidade do universo da pesquisa, pois este tipo de pedido também consta em cartas dirigidas a outros artistas que não pertencem à categoria mencionada pela reportagem.
Porém, ainda por ocasião da exibição da novela em questão, uma atriz entrevistada pelo jornal O Globo afirmara que recebia uma grande quantidade de cartas. No acervo, porém, só constavam três.
Em conclusão, é permitido afirmar que as questões metodológicas – em relação ao controle do universo da pesquisa e à consequente aleatoriedade dos dados primários – podem ser consideradas resolvidas, justificando mesmo a ampliação do universo, ou seja, não o limitando à novela das oito.
O método, pois, de transferência ao pesquisador das cartas enviadas originalmente a artistas da novela das oito somente pode ser observado no momento em que deixou de haver, por parte do Departamento do Elenco, a distinção entre cartas da novela das oito e das demais. Neste sentido, a inclusão das cartas de outras novelas e mesmo de minisséries se apresenta como uma condição sine qua non, em termos metodológicos, para a garantia da validade das conclusões permitidas pelo estudo.
Por fim, uma carta que informava a uma atriz que fora enviado pela remetente um presente a ser solicitado no Correio, foi devolvida ao Departamento de Elenco da Rede Globo de Televisão. Noutra ocasião, outra foi devolvida aos Correios com solicitação de encaminhar de volta à remetente, por conter sua Carteira de Trabalho.
ANEXO QUADRO
FLUXO DE REMESSA DE CARTAS
PELO DEPARTAMENTO DE ELENCO
| REMESSA | DATA | NOVELA DAS OITO | OUTRAS NOVELAS | TOTAL |
| 1ª | 06/05 | 17 | - | 17 |
| 2ª | 18/05 | 09 | - | 09 |
| 3ª | 30/05 | 07 | - | 07 |
| 4ª | 28/05 | 24 | - | 24 |
| 5ª | 31/06 | 87 | - | 87 |
| 6ª | 08/07 | 216 | - | 216 |
| 7ª | 20/07 | 09 | 39 | 48 |
| 8ª | 29/07 | 44 | 154 | 198 |
| 9ª | 04/08 | 60 | 102 | 162 |
| 10ª | 10/08 | 95 | 94 | 189 |
| 11ª | 17/08 | 107 | 100 | 207 |
| 12ª | 24/08 | 40 | 94 | 134 |
| 13 | 31/08 | - | 165 | 165 |
| 14ª | 07/09 | 04 | 196 | 200 |
| 15ª | 14/09 | 26 | 38 | 64 |
| 16ª | 23/09 | 14 | 105 | 119 |
| 17ª | 28/09 | 10 | 88 | 98 |
| 18ª | 05/10 | - | 72 | 72 |
| 19ª | 10/10 | - | 91 | 91 |
| 20ª | 21/10 | 40 | 89 | 129 |
| 21ª | 26/10 | 01 | 119 | 129 |
| 22ª | 02/11 | - | 56 | 56 |
| 23ª | 09/11 | 01 | 119 | 120 |
| 24ª | 16/11 | 04 | 43 | 47 |
| 25ª | 25/11 | 24 | 119 | 143 |
| 26ª | 30/11 | - | 86 | 86 |
| 27ª | 09/12 | 15 | 63 | 78 |
| - | incerta | - | 61 | 61 |
| TOTAL | 853 | 2.080 | 2.933 | |
CODIFICAÇÃO DAS LINGUAGENS DAS CARTAS
Ortografia, concordância, pontuação e ainda a variedade de escrever nomes próprios trouxeram alguns problemas na etapa da digitação das cartas. Visto o trato da língua portuguesa informar sobre quem a fala ou escreve, e tomando-se como referência o chamado "Português oficial", considerou-se pertinente manter a forma usada pelos remetentes das correspondências, ao copiá-las.
1 - CONDIÇÕES CONTEXTUAIS DO PORTUGUÊS
Ao copiarem as cartas, os digitadores marcaram com o sinal (*) os erros encontrados, independentemente da sua característica. Observa-se que a dificuldade em decifrar as cartas lhes obrigou, não raras vezes, a interpretar a caligrafia. Por esta razão o leitor das cartas eventualmente poderá discordar da interpretação dada, sobretudo quando se trata da diferenciação entre "m" e "n" e "i" e "e". O remetente não habituado a se expressar pela escrita, nem sempre consegue corretamente escrever o "m", por exemplo, fazendo-o parecido com o "n" ou vice-versa. Quando ocorria incorreção, os digitadores tomavam como critério a forma da escrita das mesmas letras na mesma carta.
2 – PONTUAÇÃO
Pelo fato da maioria dos remetentes encontrar dificuldades de redação, misturando o português escrito e o português falado, os digitadores tiveram dificuldades em apontar com o sinal "(*)" eventuais erros de pontuação. Não se obteve consenso sobre o critério a ser adotado, visto o Português falado expressar a pontuação mediante a entonação. Foi impossível questionar as regras de pontuação no momento em que o remetente "fala por escrito", visto ao se expressar, este "falar" não apresentar fronteiras objetivas com a escrita. Por esta razão, o leitor das cartas poderá discordar de erros de pontuação indicados pelos digitadores.
3 - NOMES PRÓPRIOS
Em geral, os nomes próprios são grafados de duas maneiras diferentes: "Cláudio" e "Claudio" ou "Walter" e "Valter", por exemplo. Quando registrado, porém, o nome recebe somente uma "edição". Ocorre, entretanto, que a imprensa nem sempre a observa e, consequentemente, os remetentes das cartas também utilizaram, na mesma carta, as várias maneiras permitidas. Isto criou dificuldades tanto para os digitadores quanto, posteriormente, para a codificação dos nomes. Como critério na digitação, tomou-se como referência a primeira formulação do nome, na carta.
4 - CODIFICAÇÃO DOS NOMES
Na codificação dos nomes não se levou em conta abreviaturas, nomes compostos e qualificações carinhosas utilizados originalmente pelos remetentes. Os nomes próprios codificados tornam-se, pois, artificiais. Por conseguinte, também suas abreviações e qualificações carinhosas perderam o sentido singelo a elas atribuído pelo tratamento do remetente. Visto a codificação dos nomes dos artistas resultar em nomes compostos, estes são utilizados sempre, mesmo no caso de uso, por parte dos remetentes, de nomes simples ou abreviaturas. Um exemplo: no caso de uma atriz cujo nome verdadeiro é duplo (A B), mesmo que o remetente a chame de A ou de B, respectivamente abreviatura ou apelido, ela será nomeada como Maria Bruna.
LEGENDA
Em virtude da codificação como condição sine qua non para se ter acesso às cartas, todos os nomes foram codificados.
1 - NOMES DOS ARTISTAS
Os nomes dos atores da novela das oito estão caracterizados pela letra "J" (José) seguida por outro nome masculino: José Antônio, José Bernardo, etc., e os nomes das atrizes pela letra "M" (Maria) seguida de outro nome feminino: Maria Antônia, Maria Bruna, etc. A ordem alfabética é totalmente aleatória e, por esta razão, não expressa qualquer qualidade. Os atores de outras novelas e minisséries, bem como os autores, diretores e funcionários da Rede Globo, são também caracterizados por nomes duplos; entretanto, a primeira letra não especifica uma novela ou minissérie.
2 - NOMES DOS REMETENTES
Quando mencionados nas cartas, e sendo o remetente masculino, o seu nome é Ivo; tratando-se de uma remetente, o nome é Malu. Às vezes ocorre que nomes de outras pessoas também são mencionados; neste caso inventou-se qualquer nome e mesmo um sobrenome.
3 - TÍTULOS DE NOVELAS E MINISSÉRIES
Os nomes de novelas e minisséries foram tirados do livro "Telenovela Brasileira - memória" de Ismael Fernandes (Editora Brasiliense, São Paulo: 1987, 521 págs.), começando com aqueles da década de sessenta. Houve a preocupação de fazer coincidir, na medida do possível, títulos compostos na época atual com aqueles daquela década. A sequência alfabética do livro mencionado orientou a escolha, conforme a ordem cronológica de entrada.
4 - NOMES DE ARTISTAS DE OUTROS PROGRAMAS
A codificação dos nomes de artistas de outros programas foi feita por acaso, tendo, entretanto, como característica, um nome não-composto. Tratando-se de grupos, escolheu-se o menos complicado como, por exemplo, Os Meninos ou As Meninas.
5 - CASO ATÍPICO
Nas cartas dirigidas ao ator José Eudes menciona-se, diversas vezes, sua esposa-cantora, cujo nome foi codificado como Maria Silva ('M' por estar relacionado à novela das oito) e seu filho com o nome Zezinho.
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