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PUC-Rio
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Jornal/Revista: O Globo Data de Publicação: 08/07/2007 Autor/Repórter: Mirelle de França
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LÁGRIMAS, GÊMEOS E UM TAPA-OLHO NUM CLÁSSICO DRAMALHÃO
Pense duas vezes antes de dizer por aí que sua vida parece uma novela mexicana. Não é. Posso garantir depois de assistir a três capítulos de “Mundo de feras”, trama (e drama) da Televisa que o SBT exibe desde março. Quer apostar? Tem gêmeos separados no nascimento (o irmão mau, Damião, perdeu uma perna e usa um tapa-olho) e tem a vilã, Joselyn, escondendo o pai presidiário. Achou pouco? Paulina, a mocinha, perde o bebê e o mocinho, Juan Cristóbal, descobre que sofre de leucemia. E para não deixar dúvidas: a mãe do mocinho morre depois de fazer uma doação de medula para o filho doente.
Se tudo isso aconteceu em apenas três capítulos, fico pensando o que poderá vir por aí até o fim. E como é complicado entender a trama de “Mundo de feras”. Nem mesmo anos de novelas brasileiras me prepararam para tanta criatividade. Para piorar, o SBT não divulga os horários de exibição e faz cortes de edição inacreditáveis. O telespectador perde, ainda, alguns minutos hipnotizado pela maquiagem e os cabelos de Joselyn: os maiores cílios do universo e o maior aplique de cabelo da TV.
Na linha bizarrices capilares, tem ainda o implante de Tibério, um semi-vilão cuja mãe, Dolores, é uma falsa freira ex-presidiária. Detalhe: os intérpretes dos personagens têm praticamente a mesma idade, o que faz com que Dolores tenha parido Tibério aos 5 anos, mais ou menos. A história, na verdade, é um clássico duelo entre o bem e o mal. O gêmeo bom, Gabriel, é doce, carinhoso e rico, dono de uma construtora. O peste, Damião, sofreu a vida inteira e não suporta ver o sucesso do irmão. Jocelyn, a vilã, é uma viúva que se casou com Gabriel, mas vê seu reinado ameaçado por sua suposta irmã, Mariângela, a grande heroína de “Mundo de feras”. Aliás, heroína mesmo, porque a atriz, Gaby Espino, é a única com “jeito”, cabelo, maquiagem e roupas normais. Bem, mais ou menos normais. Figurino definitivamente não é o forte das produções mexicanas.
Mariângela, de origem pobre, descobre ser herdeira de Clemente, teoricamente pai de Jocelyn. E vai morar na casa da nova irmã e de sua mãe malvada, Miriam. Vai para o mundo das feras. Daí o nome da novela, entende? Eu sei, é impressionante.
Os diálogos são clássicos. Joselyn, num único capítulo, disse: “Malditos! Vou me vingar, eu juro!” e “Uma só vida não será suficiente para acabar com essa dor”. Tudo isso com os olhos abertos, sem piscar, numa estratégia para conseguir chorar em cena. Ou será recurso dramático? Já a mocinha, Mariângela, mandou um “não sei se tenho o direito de sonhar”. Tudo isso com um pano de fundo estranho, cenários toscos (os crachás da construtora de Gabriel têm quase o tamanho de uma folha de papel A4) e, lógico, muita música mexicana.
Mas preciso confessar. O último capítulo a que assisti terminou com o desaparecimento da doce Mariângela. Era o resultado de um plano malvado das feras Joselyn e Miriam. Alguém pode me dizer o que aconteceu?
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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 132661