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Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 30/05/1991
Autor/Repórter: Roberto Comodo

NOVELAS MEXICANAS FAZEM SUCESSO

Com os dramalhões 'Carrossel' e 'Rosa selvagem', o SBT está triplicando a sua audiência

SÃO PAULO - O inverossímil em dose dupla está acontecendo no SBT, onde as novelas mexicanas Carrossel e Rosa selvagem, há pouco mais de uma semana no ar, preenchendo o horário nobre da emissora, estão tendo o triplo de Ibope da infeliz Brasileiras e brasileiros, que sucumbiu com uma média de audiência de apenas 4 pontos. Não é a primeira vez que o SBT, atacado pela síndrome de O direito de nascer, utiliza os dramalhões mexicanos para atingir o público. Em 1982, a novela com sotaque de bolero Os ricos também choram, com a mesma atriz de Rosa selvagem, a quarentona Verônica Castro, obteve inacreditáveis 23 pontos do Ibope.

Carrossel, que ocupa o horário das 20h às 21h no SBT, é uma espécie de novela infantil, que gira em torno de uma professora despreendida, dedicada somente aos seus alunos, crianças de todos os tipos, que parecem saídos de uma foto publicitária da Unicef. Com uma história tosca, salpicada de pequenos e grandes dramas, como o preconceito racial, Carrossel está tendo uma média de audiência de 16 pontos. Mais adulta, Rosa selvagem, exibida a partir das 21h, está emplacando 11 pontos com a singela trama de uma moleca de rua, a kitsch Verônica Castro, que na verdade e bem nascida e se apaixona por um ricaça "Estas duas novelas são recentes, com imagens mais modernas que as que exibimos anteriormente, e estão sendo mostradas simultaneamente no México e em alguns países da América Latina", diz Luciano Callegari, superintendente de programação do SBT, ainda surpreso como sucesso dos dramalhões mexicanos. Eles foram comprados pela emissora como uma opção para manter o formato de novelas no ar, depois do naufrágio de Brasileiras e brasileiros e o congelamento do núcleo de teledramaturgia do SBT, comandado pelo diretor Walter Avancini.

"Não entendo por que existe preconceito contra as novelas mexicanas, mas não contra os filmes americanos ou os desenhos animados japoneses na televisão brasileira", reclama Callegari, revelando que o SBT vai exibir os primeiros 20 capítulos das novelas para depois comercializar o espaço publicitário. "A audiência só tende a subir", aposta ele, acrescentando que o SBT desembolsou de US$ 10.000 a US$ 12.000 por capítulo para comprar as novelas mexicanas, contra US$ 35.000 para cada capítulo de Brasileiras e brasileiros. "Não tínhamos tradição de novela e acabamos investindo muito sem um retorno imediato", explica.

O diretor Walter Avancini, que continua no SBT, não compartilha da euforia mexicana da emissora e vê com horror os dramalhões tomando o espaço que antes era seu. "Acho que há uni erro em buscar a qualquer custo a audiência", diz Avancini, que não poupa criticas às novelas Carrossel e Rosa selvagem. "Elas são ruins em todos os sentidos, piores que o folhetim tradicional, nem sei que nome dar a elas", dispara o diretor, que acha preferível ter a pequena audiência de Brasileiras e brasileiras, mas com a ousadia de ser feita aqui.

"Estas novelas mexicanas são um subproduto do dramalhão, que exploram o lugar-comum sem nenhuma qualidade", arrasa Avancini, explicando que por este caminho é fácil atingir a audiência. "Mas é um caminho oportunista, que não dá nada em troca para o público de TV, que já tem pouquíssimas referências." Bem diferente compara o diretor, de seu trabalho na frustrada Brasileiras e brasileiros, que tinha um conceito e a intenção de criar um núcleo de -teledramaturgia em São Paulo. "Era a busca de um novo caminho", frisa Avancini, avisando que vai continuar lutando para que os dramalhões mexicanos não fiquem eternamente no ar.

Com 120 e 125 capítulos respectivamente, Carrossel e Rosa selvagem devem ficar pelo menos seis meses no ar, e serão substituídas por mais duas novelas mexicanas, já compradas pelo SBT, revela Luciano Callegari, o superintendente de programação da emissora de Sílvio Santos. Mas isto não quer dizer que a emissora não voltara a investir em novelas brasileiras, acrescenta. "Sabemos que é muito mais importante produzir aqui do que depender de importações, mas não podemos gastar mais do que faturamos", afirma Callegari, anunciando que o SBT volta a fazer novelas no início de 1992. "Avancini está desenvolvendo um novo plano e tentaremos diminuir os custos absurdos de US$ 35.000 por capítulo de novela", conta.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 15457