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Nova Consulta

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 03/11/1995
Autor/Repórter: João Luiz de Albuquerque

A HISTÓRIA DA FITA 39 A

O último dia de Chico Pinheiro na emissora do 'bispo' Edir Macedo

Quando deixou a cadeira de barbeiro (usada na televisão para a maquiagem), Chico Pinheiro olhou a hora e viu que tinha sobra de tempo, para os dois minutos de relaxamento que sempre fazia, antes de entrar no ar para comandar o Jornal da Record. Naquele dia, ia ser quase impossível limpar a cabeça dos problemas que vinham se avolumando há mais de um mês tudo por causa da mudança de rumo na filosofia imposta pelos próprios pastores da igreja do 'bispo' Macedo, ao departamento de jornalismo por ele dirigido. Afrouxou a gravata, desabotoou o botão do colarinho de sua camisa bem passada e foi procurar um canto tranqüilo. Fechou os olhos e fez a maior força para se desligar geral. Sua cuca resistiu enquanto pôde, preocupada que estava com uma certa fila de vídeo, a 39 A, onde estava gravada uma entrevista com o cardeal do Rio de Janeiro D. Eugênio Salles.

Os homens tinham vetado sua exibição no noticiário que ia ao ar dali a pouco e ele, Chico Pinheiro, que a crítica dizia ser o melhor ancora da TV, tinha peitado a absurda ordem superior. Obrigado a repetir uma fala do bispo Macedo, repetida à exaustão desde a véspera, decidiu colocar as duas matérias no noticiário. A fala do bispo Macedo, enviada dos Estados Unidos, via telefone, com suas desculpas públicas, e a entrevista de D. Eugênio. Há tempos, mesmo sabendo das dificuldades de fazer jornalismo numa televisão dirigida por uma igreja - ainda por cima uma bem polêmica como a do bispo Macedo - tinha topado a parada. O presidente da Record, o bispo João Batista Ramos, da Igreja Universal do Reino de Deus, tinha garantido total liberdade jornalística para registrar todos os fatos considerados importantes. Colocá-los no ar já seria outra história, comum, banal, já que todas as outras redes de televisão tinham lá seus limites de censura corporativa. Aceitou porque sabia da importância do jornalismo na TV, principalmente num país de analfabetos.

Tudo ia indo bem até começarem os recados. Proibindo o combinado, o de registrar os fatos. Vicentinho não podia. Betinho, também não. Chico pediu isto por escrito e ficou esperando até hoje. Baseado no combinado com o pastor-presidente, endureceu. Foi quando, há um mês, Eduardo Lafond, diretor de programação, lhe avisou. "O presidente resolveu que não vamos mais ficar com você." Começaram procurar um substituto, mas o chute na imagem católica brecou tudo. Não era hora de aumentar a confusão, Chico sabia que os pastores estavam esperando qualquer coisinha para demiti-lo. Pelo telefone, o Eduardo Lafond avisara do veto à matéria do cardeal. A discussão chegou aos berros e gritos. Chico, avisando: "A matéria vai ao ar. Impedir, só se você ou o presidente vierem aqui na redação pegar a fita!!!"

Relaxado, quase calmo e tranqüilo, Chico Pinheiro foi para o estúdio apresentar seu jornal. Ajeitou o microfone na lapela e perguntou à editora-chefe do programa, Ana Maria Paes Barreto, sentada lá dentro, no aquário da técnica: ''Onde está a fita 39 A?''. Ana: "Está no controle-mestre, pronta para ir ao ar." A cada intervalo de bloco, angustiada, ela perguntava lá para cima: "A fita 39 está no ponto?" Sempre estava, mas a equipe do jornal esperava pelo pior: que a qualquer momento a direção da emissora fosse lá arrancá-la da máquina. Chico tinha se precavido. Além de colocá-la como última matéria, tinha levado com ele um papel com o resumo das declarações de D. Eugênio. No caso de a fita ser roubada, ele contaria de improviso, no ar, o seqüestro pela direção da Record e leria o resumo da entrevista de D. Eugênio.

Dia seguinte, cedo. Era visível a irritação dos pastores com a veiculação da matéria de D. Eugênio Salles. Dia seguinte, mais tarde, Eduardo Lafond repetiu a frase do mês anterior - que o presidente João Batista tinha resolvido não ficar mais com ele, Chico Pinheiro. Era a esperada demissão. Chico Pinheiro foi para casa, passados 478 anos, como um Martinho Lutero depois de pregar suas 95 Teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, iniciando a Reforma. Gravata outra vez afrouxada, deixou o prédio da Record sem perceber que a TV tinha ficado muito mais pobre com aquela sua saída forçada. E a gente? órfão de pai e mãe.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 30122