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PUC-Rio
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Jornal/Revista: Jornal do Brasil Data de Publicação: 20/01/1999 Autor/Repórter: Carolina Arêas
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AGUINALDO SUBVERTE E REENCONTRA O TOM
O suspense que Aguinaldo Silva prometeu nesta nova obra veio em doses suaves, pelo menos na estréia, anteontem, na Globo. O mistério de Suave veneno resumiu-se aos encontros ocasionais (ou não) entre Waldomiro Cerqueira (José Wilker) e Maria Inês (Glória Pires), pontuados pela presença casual (ou não) de Clarice (Patrícia França). O primeiro capítulo manteve a média de 43 pontos no Ibope, um a mais do que Torre de Babel.
José Wilker está bem como Waldomiro Cerqueira - o homem simples de Pernambuco, que enriqueceu explorando jazidas de mármore, mas mantém-se fiel às suas origens. Sua interpretação realmente oscila entre as convicções das raízes humildes e das que criou na nova vida no Rio de Janeiro. Waldomiro parece muito mais à vontade de capacete, entre as jazidas de mármore, do que enfiado num terno, recebendo o prêmio de empresário do ano.
Aguinaldo subverteu a ordem natural da sociedade machista, ao delegar poder ao trio de beldades femininas que compõem a prole do protagonista - Letícia Spiller (Maria Regina), Vanessa Lóes (Maria Antônia) e Luana Piovani (Márcia Eduarda). Normal para um autor que gosta de privilegiar o feminino em suas tramas.
"A mais preparada sou eu", diz Letícia Spiller ao pai, com um olhar de cortar mármore pelo meio. Mas a atriz pode relaxar um pouco na pele de sua Maria Regina, para não correr o risco de transformar-se numa vilã como a Ângela de Claudia Raia, em Torre de Babel. Letícia está linda no visual à Isabella Rossellini e pode crescer. Talento não lhe falta, como já provou em papéis anteriores.
É em Maria Regina que Aguinaldo promete concentrar a dose letal de veneno que costuma injetar em seu rol de vilãs, como fez com a Perpétua de Tieta e a Altiva de A indomada. Como definiu o autor, alguns personagens de novela são recorrentes e repetidos para serem aprimorados. A responsabilidade de Letícia, portanto, é grande.
Mas bom mesmo foi rever Irene Ravache. Ela está bem demais como a Eleonor, a desorientada esposa de fachada de Waldomiro, intocada no fundo do condomínio que ele construiu e nas ilusões que ela mesma cultiva. Eleonor vaga uma hora aqui, outra ali, tentando situar-se entre o descaso do marido e a independência das filhas.
Depois de anos esquecida em novelas do SBT, Irene volta com força em Suave veneno. Foi com ela a melhor cena da estréia, numa dobradinha impecável com Nívea Maria, a Naná, grande amiga de Eleonor. Fumante dependente e desesperada, Naná pára no primeiro bar que encontra para saciar o vício, após a saída com Eleonor da festa de premiação de Waldomiro.
É neste momento que a novela deslancha. Neste reencontro com a trama urbana (deixada de lado desde Partido alto, de 1984), Aguinaldo chega ao tom que lhe é familiar no bar freqüentado por gente comum. Eleonor parece sair de seu mundo da fantasia e é atraída por um quadro (belíssimo, de Otávio Avancini) pendurado na parede do bar. O autor da obra, Rodrigo Santoro, também está muito bem como Eliseu, pintor desesperado, à margem dos valores e da compreensão humana. Nesta prévia, o ator revela que amadureceu.
Os personagens dos outros núcleos apareceram pouco - entre eles, uma das apostas de Aguinaldo, a Marina, interpretada por Deborah Secco. É uma menina bonita e sem dinheiro, que sonha ser manequim, modelo e atriz, e, no meio do caminho, encontrar um marido rico.
Neste primeiro capítulo, Aguinaldo preferiu apresentar melhor os personagens do que as tramas, deixando um gostinho de "quero mais" no telespectador. Nada que o próprio autor já não tivesse antecipado: a virada da novela será a partir do 20º capítulo, depois que o carnaval passar. É esperar para ver. Como diz o próprio Aguinaldo Silva, "em novela, nada nunca é demais".
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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 43757