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PUC-Rio
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Jornal/Revista: O Estado de S. Paulo Data de Publicação: 23/01/1999 Autor/Repórter: Luiz Zanin Oricchio
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O SHAKEPEARE DA GLOBO E O DOS OUTROS
A nova novela da emissora, `Suave Veneno', é baseada na peça `Rei Lear', mas dificilmente levará a sua inspiração de início até as últimas conseqüências
Com mais um plano econômico fazendo água por todos os lados, o jeito é consolar-se com a ficção. A Globo, como se sabe, começou o ano a todo vapor. Já se falou da qualidade de O Auto da Compadecida, do conservadorismo estético aplicado à personagem rebelde em Chiquinha Gonzaga e agora é a vez de Suave Veneno, a nova novela. Nova? De novidade, mesmo, existe a disposição de Aguinaldo Silva em inspirar-se na peça Rei Lear, de Shakespeare, uma das mais encenadas de todos os tempos e transposta várias vezes para o cinema.
Lear é o nome do velho rei que decide dividir o poder entre as três filhas, Regan, Goneril e Cordélia. Partilha o reino, mas reserva algum poder para si, exigindo que cem cavaleiros o acompanhem. O que se segue é a disputa pela primazia entre as herdeiras, situação que termina num banho de sangue. Lear é um velho tolo. Exige das filhas uma prova verbal de amor na qual a pérfida sairá vencedora, em prejuízo da mais sincera. O rei quer mentiras, não verdades.
Na novela, Lear é o empresário pernambucano Waldomiro Cerqueira (José Wilker), que veio do nada e enriqueceu como dono de uma marmoraria. As filhas são Maria Regina (Letícia Spiller), Maria Antônia (Vanessa Lóes) e Maria Eduarda (Luana Piovani). O poder, aqui, é o da grana. Regina, a óbvia vilã, quer colocar pai e irmãs para escanteio e assumir o controle da empresa. Há um toque ecológico na jogada. Waldomiro consente em extrair apenas 200 toneladas de mármore por mês. A filha, predatória, acha pouco e assina um contrato de entrega de 500 toneladas. Pouco lhe importa se irá arrebentar o meio ambiente.
Como em todo folhetim, há as subtramas. A mulher de fachada de Waldomiro (Irene Ravache) acolhe um pintor adolescente e sem recursos. Há uma desmemoriada, Glória Pires, que terá, ao que parece, importância crescente na trama. Não poderia faltar a gostosinha arrivista, Marina (Deborah Secco), que tenta encontrar um marido rico a qualquer custo. Também é importante, pois costura a articulação entre ricos e pobres sem a qual o folhetim não funciona. A Globo e, aparentemente, os espectadores, adoram o mundo dos ricos. Mas gostam de ver gente pobre artificialmente misturada a ele. Piscadinha de olho para uma inexistente isonomia de classes.
Não há como discutir a competência da produção, a qualidade do elenco, da trilha sonora, etc. Quem já saiu do País sabe como as novelas brasileiras são apreciadas lá fora. Trata-se de uma dramaturgia popular consistente, já sedimentada no gosto do público e isso é uma vitória. Poderia, por isso, poupar-se de algumas insistências ridículas, como a caracterização de vilã de Letícia Spiller, que beira a caricatura. São detalhes, que ainda podem ser corrigidos. No todo, a novela está gostosa de ver, vai bem de ibope (teria dado 43 pontos no primeiro dia) e isso é o que interessa à emissora.
O espectador, talvez, poderia esperar um pouco mais. Por exemplo, dessa naturalização excessiva do mundo das classes dominantes. A idéia de ver na grande empresa um microcosmo social talvez seja uma boa idéia em si, mas desgasta-se pelo uso excessivo. No caso de Suave Veneno, no entanto, esse recurso dramático talvez seja mais que adequado.
De fato, não há nada que mais se assemelhe a um regime de poder absoluto que uma empresa. Os súditos, como os empregados, podem ser contemplados com privilégios ou apagados do mapa, conforme o humor ou a simpatia pessoal do patrão ou do rei. Competência, lealdade, bravura, inteligência contam pouco no reino de Lear, como contam pouco numa empresa moderna. Vale mais é a posição relativa que cada agente social ocupa em relação a outro.
No mundo de Shakespeare, quando duas pessoas se encontram, a pergunta implícita de cada uma é: "Ele é superior ou inferior a mim?" A sociedade estratifica-se assim, cada um mandando em algumas pessoas e obedecendo a outras, até chegar ao rei, que é a ponta da pirâmide e manda em todos. Nisso reside o equilíbrio autoritário. Por isso, a tragédia desencadeia-se quando o poder se fraciona.
No século 20, Rei Lear ocupou o lugar de Hamlet como a peça favorita do repertório de Shakespeare. Seu desfecho niilista, pessimista, dificilmente assimilável a qualquer catarse apaziguadora, parecia extraordinariamente adequado aos sombrios tempos modernos. Tornou-se popular porque revelava, mais que outra qualquer, a atualidade de Shakespeare. Aguinaldo Silva foi esperto encontrando um símile contemporâneo para o reino de Lear. Fica apenas uma pergunta: irá desenvolver a inspiração inicial até o seu limite, isto é, mostrando a degradação inexorável que acompanha o exercício do poder? Pode ser, mas, em se tratando da dramaturgia global, essa esperança mais parece sonho de uma noite de verão.
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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 43883