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Jornal/Revista: O Estado de S. Paulo
Data de Publicação: 16/09/1999
Autor/Repórter: Júlio Gama

'SUAVE VENENO' CHEGA AO FIM COM IBOPE BAIXO

Um balanço da novela das oito da Globo comprova o quanto o texto foi patrulhado

A Globo exibe amanhã o último capítulo de sua novela das oito, Suave Veneno, de Aguinaldo Silva. Se a média desta semana se mantiver igual à da semana passada, não passará muito dos 40 pontos. Portanto, acima dos 36 pontos iniciais, em plenas férias de verão, em janeiro, mas abaixo da meta de 55 pontos que a Globo impõe para o horário e ainda muito abaixo dos 61 pontos de média de A Indomada, novela anterior do mesmo autor. Logo depois de A Indomada (reprisada à tarde), Silva chegou a ser chamado de `O senhor 60 pontos". Então, seria o caso de chamá-lo agora de "O senhor 40 pontos"?

É certo que não. Suave Veneno sai do ar depois de oito meses como uma das novelas mais patrulhadas dos últimos tempos. Os homossexuais, por exemplo, reclamaram do tratamento dado aos personagens Uálber (Diogo Vilela) e Edilberto (Luiz Carlos Tourinho). O Grupo Gay da Bahia (GGB), que se apresenta como o mais antigo grupo militante homossexual do País, chegou a entrar com uma representação no Ministério Público e outra na Secretaria Nacional dos Direitos Humanos contra o autor e a emissora, alegando atitude discriminatória da classe.

"O Aguinaldo errou a mão completamente", avalia o presidente do GGB, Luiz Mott, de 53 anos, professor de antropologia da Universidade Federal da Bahia. "O Edilberto foi exposto ao ridículo e vítima de agressões físicas." Mott cita como exemplo uma cena em que o personagem leva um puxão de orelha e é chamado de "lombriga de pobre". "Causou um profundo desgosto ver o gay retratado daquela forma preconceituosa", completa Mott.

A Justiça do Rio também implicou com Suave Veneno. O juiz Siro Darlan, da 1ª Vara da Infância e da Juventude, cassou os alvarás que permitiam as gravações das crianças Vinícius de Oliveira, Cecília Dassi e Herval Silveira. O juiz teria reprovado as gravações num albergue de crianças.

Pesquisas - Nada, porém, alterou tanto Suave Veneno quanto as pesquisas com telespectadores realizadas sistematicamente pela TV Globo. Antes da estréia da novela, o autor declarara nunca ter mexido num texto de sua autoria por causa do retorno do público. Não deveria ter dito isso, porque, não a curto, mas a médio prazo, queda de audiência significa queda de preço de anúncio e de faturamento. Vale sempre lembrar que as TVs abocanham metade do bolo publicitário do País, que em 98 representou US$ 8,3 bilhões (cerca de 1% do PIB). E, para os executivos, não há brilhantismo de autor que valha o prejuízo.

Pois Silva alterou uma novela sua pela primeira vez. A novela, segundo anunciara o autor, seria amarrada por uma trama de suspense sustentada por "uma virada" a cada 30 capítulos. Virou, mas de ponta-cabeça, a partir de maio. Primeira vítima: a advogada Clarice (Patrícia França), uma das personagens principais na idéia original, deveria ir até o fim da novela quando seria revelado que Valdomiro (José Wilker) era seu pai. Mas a moça morreu no meio da novela e arrastou, em seguida, sua tia (Léa Garcia) e o misterioso personagem de Edwin Luisi.

Lavínia (Glória Pires) teve de passar por mais dificuldades e virou camelô. O próprio Valdomiro, outrora um arrogante Rei do Mármore, sem a Marmoreal, família desfeita, abriu um negócio no subúrbio para começar do zero, valente, batalhador, como o povo gosta. Até o bom-moço Figueira (Kadu Moliterno) trocou o terno por um macacão coberto de pó de mármore.

Maria Regina (Letícia Spiller), a filha malvada de Valdomiro, alimentou o ódio pelo pai até o fim, mas a ex-paquita confundiu respiração ofegante com intensidade dramática e restou apenas uma belíssima atriz esforçada. Eliseu (Rodrigo Santoro) enveredou pelo caminho do mal e passou a falsificar quadros de Michelângelo e Dalí, a pedido de Marcelo Barone (Fulvio Stefanini). Colecionador de obras de artes nacionais, Silva abordou oportunamente a falsificação de quadros no momento em que as estatísticas mostravam um aumento desse tipo de crime. Mas Eliseu se arrepende, denuncia o seu mentor, cumpre pena de 18 meses e termina nos braços de Márcia (Luana Piovanni).

Mistério - O personagem de Stefanini entrou na trama para aumentar o mistério. As pesquisas devem ter pedido isso. A luta maniqueísta do bem contra o mal ganhou tom superlativo ao defrontar os personagens Marcelo Barone e Uálber, o diabo contra o ser de espírito elevado, a força do mal contra a força do bem. As pesquisas também devem ter indicado que Irene Ravache deveria amar e ser amada.

Os defensores das pesquisas podem dizer que a novela só não naufragou de vez porque o telespectador foi consultado a tempo. O autor pode argumentar que as pesquisas não lhe deram tempo de desenvolver sua trama original. Autor de algumas das novelas de maior sucesso da história da TV (Roque Santeiro, de 85), Tieta (89), Fera Ferida (93), Silva também não deve ter ficado muito satisfeito com o resultado de sua trama.

No último capítulo, mandou o seguinte recado a José Wilker: " (...) Aquele que, durante a novela, ganhou o direito de falar por todos, homens e mulheres de boa vontade. Obrigado pela paciência, sinceridade, dedicação. Te devo isso por toda a eternidade." Durante a novela, Wilker teria circulado nos estúdios com uma camiseta em que se lia: "Suave Veneno: Eu sobrevivi."

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 51327