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Nova Consulta

Jornal/Revista: Jornal do Brasil
Data de Publicação: 17/09/1999
Autor/Repórter: Artur Xexéo

O BRASIL TODO DIA ÀS 8 DA NOITE

Algumas profissões são malditas no Brasil. Juiz de futebol, por exemplo. Ou técnico da seleção. Ou ainda autor de novela das oito. O Brasil inteiro acredita que entende mais de futebol do que qualquer juiz. Todo o país se acha mais capaz de escalar a seleção do que qualquer técnico. E, enfim, qualquer um tem idéias melhores para a novela das oito do que Aguinaldo Silva. Suave veneno está saindo do ar comprovando a maldição da profissão de novelista. O Ibope não chegou aos índices que a Globo almejava, a crítica se mostra meio indiferente a uma trama envelhecida, o público já pensa mais em Terra nostra, a próxima atração. O colunista nada contra a corrente e, mesmo admitindo que, dificilmente, qualquer novela possa superar o desgaste de ficar tanto tempo no ar com capítulos tão longos, elege Suave veneno como um dos trabalhos recentes mais interessantes do gênero. É verdade que, a esta altura do campeonato, ninguém está mais muito interessado em saber onde estão os diamantes de Valdomiro, se Maria Regina merece um final feliz ou como será a reunião do par romântico. No entanto, Suave veneno vai fazer falta como o programa de TV que mostrava, diariamente, algumas mazelas do Brasil atual.

Não conheço trabalho artístico deste 1999 que tenha mostrado tão bem quanto a ainda atual novela das oito alguns aspectos tão característicos da sociedade brasileira deste fim de década. Num resumo simplista, Suave veneno é a luta entre Maria Regina e Valdomiro pelo controle da Marmoreal. No subtexto, é a luta entre empresários inescrupulosos, que não se preocupam com a questão social, que desprezam as preocupações ecológicas, que pensam em suas contas bancárias em primeiro lugar, contra empresários conscientes, capazes de perder dinheiro mas investir na preservação do meio ambiente, que associam o crescimento da empresa a preocupações sociais. Assim, a Marmoreal é o Brasil. Maria Regina e Valdomiro ...bem, é só ler os jornais e escolher quem os personagens representam.

Mas Aguinaldo Silva acertou a mão mesmo ao criar uma série de personagens, típicos dos nossos dias, mas que ainda não tinha aparecido no folhetim eletrônico. Não entende o Brasil de hoje quem não conhece o porteiro que investe toda uma vida para ver o filho se transformar num jogador de futebol de sucesso no exterior. Ou o filho de porteiro cuja única oportunidade de subir na vida é tornando-se jogador de futebol. Ou ainda a loura falsa que imagina sua carreira de modelo alçada às alturas por sua ligação com um jogador de futebol. Ou a empregada doméstica que alcança a fama e a fortuna só por possuir um bumbum dourado. Aguinaldo Silva pintou um Brasil que a gente não gosta de reconhecer. Nem por isso é um Brasil menos verdadeiro.

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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 51329