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PUC-Rio
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Jornal/Revista: Folha de S. Paulo Data de Publicação: 09/05/1984 Autor/Repórter: Isa Cambará
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A DEMOCRACIA PORTUGUESA NA TV
"Dez anos de democracia em Portugal" poderia ser o título do programa "Conexão Internacional" que vai ao ar, hoje, tendo como ponto principal uma entrevista com o primeiro-ministro português, Mário Soares. Cenas da época salazarista, do dia 25 de abril de 74, da guerra em Angola são mostradas pelo programa que pretende ser, segundo o seu diretor Walter Salles Jr., mais um documentário do que simplesmente uma entrevista nos moldes habituais do programa.
A idéia de se fazer um "Conexão Internacional" especial sobre o tema foi do escritor Alfredo Sirkis, que juntamente com o diretor, é o responsável pelo roteiro. Sirkis encarregou-se, inclusive, dos contatos para que a entrevista com Mário Soares fosse realizada. Inicialmente, o presidente Ramalho Eanes seria, também, entrevistado, mas a data do encontro da equipe brasileira com Soares coincidiu com a viagem do presidente ao Canadá. Mas, para Alfredo Sirkis, a presença de Soares preencheu plenamente o objetivo do programa, "depois ele é, politicamente, o personagem dominante na vida portuguesa nos últimos dez anos".
O primeiro-ministro português fala da situação em seu país, das mudanças nos últimos dez anos e até do Brasil, mas a afirmação mais curiosa fica por conta de sua mulher, d. Maria, que tem uma pequena participação no programa e faz uma inconfidência: seu marido, como ela, é M das novelas brasileiras, exibidas com grande sucesso na tv portuguesa.
Emoção - Mas, a aparição da sra. Soares serve, também, para ficar claro que as mulheres portuguesas de meia idade podem ser modernas, ativas e politicamente conscientes, apesar de terem sido criadas - e, alguns casos, nascidas - dentro de uma ditadura (extremamente conservadora, moralmente) que durou 48 anos.
O povo de Portugal também entra no vídeo, tendo como fundo poesias de Fernando Pessoa ou canções de Caetano ("Argonautas"), Chico ("Tanto Mar") e Zeca Afonso ("Grândola, Vila Morena"). Cenas de Lisboa, do Alentejo, dos Açores, do Algarve mostram paisagens e o povo português no seu cotidiano. E dos arquivos da Rádio e Televisão Portuguesa - cedidos por seu correspondente no Brasil, Reinaldo Varela - foram tiradas as cenas que mostram Salazar, a guerra em Angola e a "Revolução dos Cravos". O objetivo confesso do diretor Walter Salles Jr. foi despertar a emoção do espectador, o que o programa, realmente, consegue.
Mário Soares fala do orgulho de ser português ("Quando vou ao Brasil e vejo esse portentoso país, sinto a glória de ser português"), mas também das limitações do seu país. Reconhece que para se completar o movimento de 74 é necessária uma mudança profunda na mentalidade do português :
"Para isso, é necessário um trabalho que, às vezes, leva gerações. A mentalidade do povo mudou muito nos últimos dez anos. Todo mundo habitou-se à democracia. As contestações, o confronto de opiniões entraram na vida do português. Hoje, não há um português que não queira decidir seu destino, que não tenha idéias próprias sobre seu futuro".
Comunistas conservadores - O primeiro-ministro critica a radicalização do início do período pós Salazar: "Não acredito em algumas fórmulas consagradas em 74/75, quase todas baseadas na ideologia comunista, que tem muito de utópico. Os comunistas falam da ditadura do proletariado, mas quando chegam ao poder formam as sociedades mais hierarquizadas, mais fechadas, mais impenetráveis ao progresso, mais conservadoras. Basta ver que os sistemas comunistas são governados por gente velha, que faz parte de uma nomenclatura que não muda".
Mário Soares define o regime português não como socialista ("essa é uma palavra equívoca") mas como uma democracia-pluralista "que se assenta na vontade livre do cidadão, em eleições livres, na pluralidade dos partidos". Defende a iniciativa privada ("se o Estado coletiviza a economia, passa a ter súditos e não cidadãos, pois as pessoas passam a ser dependentes dele") e as eleições diretas: "E fundamental para assegurar a democracia. Para que o presidente da República tenha autoridade efetiva tem que se eleito pelo cidadão".
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Fonte: Banco de Dados TV-Pesquisa - Documento número: 5434